Foi com atraso que pude assistir através da RTPN ao debate dos prós e contras sobre a questão do terrorismo, a propósito do 11 de Setembro de 2001, e ao confronto entre as posições de Pacheco Pereira e de Mário Soares, além da prestação de dois membros da comunidade muçulmana portuguesa (que me pareceu muito significativa do que pensa, não a “rua árabe”, mas uma boa parte da elite muçulmana) e de uns historiadores (que sinceramente não entendi que acrescentaram).

Contudo há uma outra apreciação possível da questão do terrorismo e da actual situação geopolítica que não comunga de algumas posições fundamentais nem de Mário Soares nem de Pacheco Pereira.

Os prós e contras excluíram à partida quer os neo-conservadores da doutrina do «regime change» (posição que não creio ser a de Pacheco Pereira, nem do inglês Tony Blair) quer os “aliados objectivos” (para usar uma terminologia de há uns 30 a 40 anos atrás) das redes terroristas e de alguns países fora do baralho – posição que não é a de Mário Soares.

Contudo, creio haver, no campo democrático, uma posição distinta das duas que nos prós e contras se apresentaram como as duas opções geopolíticas sérias em cima da mesa.

Por exemplo, um trabalho recente da Trilateral Commission (a que chamaram de “Plano B” para o Irão), que me foi enviado pelo meu amigo Terence Ward, equacionou algumas cartas sobre o Irão que poderão ser jogadas e que são distintas das duas que são comummente apresentadas – ataque “pre-entivo” (ainda não há uma boa tradução para «preentive war», distinguindo de guerra preventiva) versus deixar os iranianos na sua “vidinha”, aproveitando integralmente a janela de oportunidade histórica, impondo, unilateralmente, o país como nova potência nuclear regional.

Período de transição pode durar décadas

A questão essencial, a meu ver, é que não é possível discutir a questão das redes terroristas integristas islamitas ou dos movimentos estratégicos de alguns países fora do baralho das grandes potências, sem partir da actual situação de transição geopolítica.

Os acontecimentos que se vão sucedendo correspondem ao momento que o ciclo longo geopolítico atravessa depois da implosão da União Soviética, da emergência das novas grandes potências (nomeadamente a China e a seu tempo a Índia) e do paradoxal enfraquecimento dos Estados Unidos – uma situação que os estrategos norte-americanos bem têm consciência e contra a qual procuram reagir, tendo ensaiado a estratégia Bush-filho, numa primeira rodada inspirada pelos chamados neo-conservadores.

O mundo geopolítico não mudou em 11 de Setembro de 2001, como simplisticamente se argumenta na propaganda. Havia começado a mudar doze anos atrás. Provavelmente, esta transição ainda durará mais uns bons anos, até que a nova configuração de alianças e de blocos geo-estratégicos esteja no terreno.

Este tipo de períodos não são nenhuma “inovação” da actual fase de globalização, sempre ocorreram nas transições de ciclos longos geopolíticos. Basta olhar para a anterior transição – desde que a Inglaterra começou a perder a hegemonia mundial até que os Estados Unidos se afirmaram como grande potência dominante.

Recordem-se alguns factos do anterior ciclo. Desde que os ingleses se deram conta da formulação da «Weltpolitik» (política mundial) do Kaiser Guilherme II em 1890 e leram atónitos o «best-seller» Made in Germany publicado em 1896, até que as ambições hegemonistas alemãs foram derrotadas de vez, decorreram mais de 50 anos… Desde que os norte-americanos iniciaram o seu posicionamento externo (Cuba e Filipinas) com a Guerra Hispano-Americana em 1898 até ao pós-Yalta (1945), passaram, também, quase 50 anos…

O terrorismo: do que se trata?

Entendamo-nos primeiro sobre o que é o terrorismo. Um fenómeno velho.

Trata-se de uma ferramenta política, que usa a violência ou a sua ameaça sistemática contra civis e populações em quaisquer contextos e contra políticos e organizações em regimes legítimos. É, por isso, uma arma política ilegítima e criminalmente imputável pelos estados de direito e pelos tribunais internacionais.

Há vários entendimentos sobre o conceito (ver por exemplo uma aproximação ao assunto em http://en.wikipedia.org/wiki/Terrorism). Parece ter surgido, pela primeira vez, num suplemento do Dictionnaire de l’Académie Française referindo-se ao período de “La Terreur” (1793-4) durante a Revolução Francesa (1789-1799). Tratava-se, então, da “legitimidade” do terrorismo de Estado tal como a definiu Robespierre (que acabaria por ser, também, uma sua vítima).

Os media e os «opinion makers» confundem hoje alhos com bugalhos e por vezes falam de actos terroristas como actos de resistência (legítima), e em outras alturas alcunham guerrilhas e grupos não convencionais – contra invasores ou de resistência a regimes totalitários – como terrorismo. Depende de como esses media e opinadores estão “embedded”.

Nem toda a guerrilha é terrorista; nem toda a violência como continuação da política é ilegítima. A fronteira é sempre a das populações e do contexto democrático. E, em todas as circunstâncias, a violência legítima é uma arma de último recurso em que o princípio anti-totalitário deve estar presente: os fins nunca justificam o uso de todos os meios.

O terrorismo não é só uma arma de Estado usada, sem rebuço, pelos regimes totalitários – é-o inclusive por estados democráticos.

Este terrorismo de Estado – distinto do terrorismo financiado por Estados – deita a nódoa no “melhor” pano: o que os responsáveis franceses fizeram contra o Rainbow Warrior do Greenpeace em 1985 (em que inclusive morreu um português, Fernando Pereira) ou o que os decisores norte-americanos fizeram com as bombas atómicas contra Hiroshima e Nagasaki em 1945, foram actos de puro terrorismo.

Não é um problema de “desproporcionalidade”, é um problema criminal.

Terrorismo e religiões

O terrorismo global (no sentido literal do termo) de inspiração integrista islamita é um movimento político.

Não é uma corrente religiosa conservadora (fundamentalismo não é igual a integrismo), nem tem o monopólio da exegética da doutrina do Islão.

Trata-se de profissionais da política – não podem ser reduzidos a uma seita de loucos fanáticos (ainda que os lá tenham).

Este terrorismo tem uma visão totalitária consistente e expansionista, e bebe as suas justificações ideológicas no uso e abuso integrista de conceitos, passagens e acontecimentos historicamente datados, que os próprios fundamentalistas (ou seja, os que se atêm aos princípios fundamentais do Alcorão) actuais recusam.

Doença que, aliás, existe em todos os integrismos – com a diferença que este, o islamita, está emergente. Os outros estão relativamente circunscritos ou não têm expressão política significativa.

Esta rede existe hoje obviamente como entidade própria – o tempo em que foi alimentada e utilizada pelos norte-americanos e outros já lá vai. Recordar esses “patronos” originais já nada acrescenta: o contexto mudou, a natureza específica destes grupos também.

Esta rede desenvolveu-se com uma estratégia própria após a implosão da URSS – autonomizou-se como “actor” histórico (para usar palavras caras). A sua visão do mundo corresponde a um tempo geopolítico que já está enterrado há séculos, mas aproveitou uma janela de oportunidade histórica para se afirmar. O seu principal acto de marketing político deu-se com a “declaração de guerra” da Al-Qaida em 1996.

Dá-se, no entanto, a esta rede mais valor histórico do que tem na verdade – colando-a e alimentando-a com a teoria do “choque entre Civilizações”.

Este discurso aproveita os pontos de vista desenvolvidos pelo académico Samuel Huntington no final dos anos 1990, e provavelmente os seus arautos nunca leram o livro (The Clash of Civilizations and the remaking of the World Order, editado pela Simon & Schuster, 1996).

Mais do que o mundo muçulmano, Huntington alertava para a emergência do mundo asiático. E a sua recomendação era muito distante da belicosidade de que os aproveitadores o acusam. Numa entrevista que deu em 1999 na revista Far Eastern Economic Review dizia: “A única forma de reduzir a potencialidade de conflitos graves entre potências líderes de civilizações distintas no próximo século, é que países pertencendo a uma dada zona de influência civilizacional travem a sua tendência para intervirem nos assuntos «internos» de outras civilizações. A solução é que se «acomodem» às novas realidades”. Huntington chamou, então, a este princípio de «real-politik» “a regra de ouro da abstenção”. “Este é o primeiro requisito de paz num mundo multipolar e pluricivilizacional. O segundo é a procura de uma mediação em conjunto”.

Todavia, o confronto com esta rede terrorista não é choque de Civilizações nenhum.

A rede terrorista manipula diferenças entre duas das Civilizações do Mediterrâneo que estão datadas de há muitos séculos atrás, para fazer passar a sua visão totalitária, contra a democracia formal e a sociedade aberta (estas últimas, aliás, realidades recentes na história da própria Europa).

O facto de ser absurdo discursar em torno desse “choque”, não deve levar a uma atitude descuidada. Os problemas religiosos, quando fortemente envolvidos na política, têm sempre de ser tratados com “pinças” – a inabilidade política (como a patenteada pelo Chefe do Vaticano recentemente) apenas lança petróleo nas chamas. Como se viu.

Contudo, como todos os movimentos terroristas da história que tiveram ambições menos localistas acabará por ser uma cartada de TERCEIROS. O que não está, ainda, claro são quais poderão ser, ao longo dos tempos, esses TERCEIROS.

O novo terrorismo globalista

O actual terrorismo integrista islamita não é assimilável ao que foi o movimento anarquista internacional do final do século XIX e princípios do século XX, nem ao nazi-fascismo dos anos 1930-1940 como arma directa ideológica e militar da ascensão de novas potências (e particularmente da Alemanha), no período de declínio do domínio mundial da Inglaterra.

Também não é o mesmo que os grupos terroristas europeus inicialmente de inspiração esquerdista nos anos 1970 e 1980 (como o Baader-Meinhoff alemão, as Brigadas Vermelhas italianas, ou o 17 de Novembro grego).

E, também, não é identificável com os terrorismos de visão estratégica localista e regionalista, como a OLP inicial, o Setembro Negro (responsável pelo massacre Olímpico de Munique), o ramo provisório (os “provos”) do IRA ou os grupos da ETA militar.

Não é, também, redutível ao terrorismo “sponsorizado” por Estados totalitários – para citar um só caso, o da Líbia (hoje alegremente reciclada).

O actual terrorismo islamita surge num período de difusão do fenómeno terrorista e de projecção global da sua acção e posicionamento.

Este terrorismo global organizado em redes vive “adormecido” dentro do próprio chamado Ocidente, mas está por quase todas as partes estratégicas do mundo, em particular no Médio Oriente e Ásia, nomeadamente nos países-chave de maioria sunita muçulmana (onde regularmente, cirurgicamente, há atentados terroristas, de que nos Prós e Contras nem se falou). E pode vir a “deslocalizar-se” e alimentar-se do “vazio” que é a África.

A sua estratégia logística é, por um lado, reticular (como acontece, por exemplo, nos EUA e na Europa) e, por outro, vive da exploração “parasita” de janelas de oportunidade em países frágeis, como aconteceu com o Afeganistão dos talibã, para citar o caso de antologia.

A forma eficaz de o combater é concentrar os esforços de segurança e de operações político-militares nessa geografia reticular.

Não é verdade que não esteja a ser feito algo nesse sentido, inclusive na Europa – aparentemente muitos atentados têm sido evitados, quer pelos factos que se conhecem, quer pelos que não são divulgados. Ainda que descontando o que possa ser contra-informação. O comum dos cidadãos nunca saberá ao certo.

Terrorismo e negociação

Daí que a questão da negociação política seja distinta, obviamente, de situações do passado.

Negociar não é imoral, sempre se negociou e negociará em geopolítica e questões de segurança. É puro cinismo negá-lo. Inclusive negoceia-se com partes do polvo se for eficaz – divide-se, retalha-se, compra-se e reconverte-se, é um velho princípio. A questão é sempre o contexto e o momento.

O problema é que muita gente com poder de decisão confunde coisas que não são o mesmo, e mete tudo dentro do mesmo saco. Isso não é só pouco sério intelectualmente, ou fruto da ignorância – é, acima, de tudo INEFICAZ.

Para se vencer as redes reticulares é necessário distinguir tudo o que tem de ser diferenciado, para se saber ONDE SE CONCENTRA A PROJECÇÃO DE FORÇA.

A questão de onde concentrar o golpe decisivo é tanto mais importante quanto o terrorismo globalista está longe do declínio – um estudo do ciclo do seu desenvolvimento realizado pelo académico Tessaleno Devezas aponta para se chegar a mais de uma dezena de milhar de “ocorrências” anuais, até que atinja um pico por volta dos anos 2030. Será, por isso, uma luta prolongada.

O eixo do Mal existe ou é uma criação da “engenharia geopolítica?

A compreensão do declínio norte-americano no ciclo longo geopolítico não nasceu com a actual Administração Bush. Já Clinton (Janeiro de 1993- Janeiro de 2001) se apercebera, provavelmente melhor do que o Pai Bush (Jan. 1989- Jan.1993).

O que houve de novo em W. Bush, o Júnior – e não é verdade que seja uma “continuidade” da política norte-americana – foi uma estratégia que definiu os alvos com mais clareza e que reintroduziu na geopolítica e na projecção de poder internacional o recurso formal às operações “pre-entivas” (o que tem sido raro em história militar, desde que o alemão von Schlieffen ao serviço do Kaiser Guilherme II as desenhou em 1905) e explicitamente ao eventual uso das armas nucleares tácticas (nomeadamente as chamadas “perfurantes”), quando julgado necessário (o que ainda não foi feito).

O seu discurso em West Point em Junho de 2002 é provavelmente a peça mais estruturada sobre o assunto, a que se seguiu o documento National Security Strategy of the United States of America, publicado em Setembro desse ano.

O problema é que os alvos definidos baralharam (propositadamente) questões distintas.

Uma questão é a rede terrorista global, outra são os chamados países do “eixo do Mal”, e entre estes, há muito bicho diferente.

Aliás, ao contrário da teoria da conspiração agora na moda, há indícios mais do que óbvios do contrário – de que a Administração Bush não tinha em boa conta as potencialidades da rede terrorista globalista. E foi surpreendida, em parte, pelo que aconteceu a 11 de Setembro de 2001; não que muita gente na segurança não a tenha avisado desde a declaração de Bin Laden cinco anos antes (nos tempos áureos de Clinton).

Os EUA desguarneceram o flanco e a liderança americana deu inclusive ar de desorientação estratégica. A rede terrorista, com a sua logística meticulosa, mas simples (por vezes aparentando um quase-artesanalismo), é, em grande parte, semi-profissional (por usar uma lógica reticular de novos profissionais da política “adormecidos”), pelo que não é detectável pelos “sensores” de segurança habituais e muito menos pelo discurso político fanfarrão.

O que os neo-neo-conservadores (para distinguir dos neo-conservadores do tempo da Guerra Fria) tinham em mente era outra coisa, e por isso tiveram de, à pressa, “encaixar” Bin Laden nos seus cenários pós-2001 para poderem fazer “passar” a sua visão de “engenharia geopolítica” do mundo.

Os neo-neo-cons tinham gerado uma doutrina de «regime change» que julgou ver na confusão geopolítica do virar de século o momento ideal para pôr em prática uma projecção de poder nalgumas partes críticas do mundo.

Esta doutrina, no seu plano ideológico, é muito parecida com a “exportação da revolução” dos tempos áureos da Internacional Comunista (aliás muitos neo-neo-cons são ex-esquerdistas) e depois com o «regime change» advogado, sempre que oportuno, pelos soviéticos, até aos anos 1980.

Mas, se este debate sobre as raízes dos neo-cons actuais pode ser interessante, não é relevante. Os neo-neo-cons não são uma força estratégica; desaparecerão à medida que o resultado prático do seu discurso se revelar e a própria Administração americana, por razões de «real-politik», os tiver de deitar fora.

O «regime change» precisava do seu protótipo de experimentação.

O Iraque foi o elo fraco ideal encontrado – o Iraque era, em parte, um país-bluff, retalhado, e enfraquecido depois da guerra com o Irão e da aventura do Kuvait (esmagada adequadamente). A intervenção no Iraque (2003) não é similar ao que ocorreu no Afeganistão (Outubro 2001) – neste último caso, uma resposta num dos paraísos logísticos da rede terrorista islamita.

Em termos de «real-politik», no Iraque não se tratou de exportar a democracia ou desmantelar ADMs (armas de destruição maciça), isso foi propaganda pura, mas de posicionamento geo-estratégico, alterando os equilíbrios existentes naquela região.

Também não é redutível à questão da captura de recursos energéticos – apesar da importância do petróleo na actual situação e de muitas guerras pelos recursos poderem advir no futuro.

A primeira consequência grave desta “experimentação” é esta:

Em termos internacionais, este uso do “pre-entivo” e do «regime change» apenas justificará política e moralmente quaisquer OUTROS movimentos de TODOS os que tiveram projecção de poder para o fazer nos momentos oportunos. Esta doutrina ainda vai custar caro aos ditos ocidentais.

Em segundo lugar:

A jogada anti-Sadam revelou-se ineficaz, como era previsível desde o início, dado tratar-se de um estado-tampão.

O output do Iraque será desastroso – tornou mais fracturantes as divisões entre o mundo muçulmano (ironicamente, sem ser esse o seu objectivo táctico) empurrando-as para a disputa militar (“guerra civil”, chama-se no Iraque); ajudou a rede terrorista global a meter o bedelho naquela zona directamente; e, a médio prazo, apenas poderá servir politicamente o Irão, cuja corrente ideológica-religiosa (xiita) domina, agora, o corredor regional da Palestina, Iraque, Líbano e Síria.

Agora, a vez do Irão?

Entendamos o Irão – mas sem o romantismo do recurso à velha Mesopotâmia ou Pérsia, de que os nostálgicos das Civilizações gostam de falar.

O Irão tem como ambições estratégicas definir um Mare Nostrum no Golfo Pérsico, dominar o Estreito de Ormuz e ter peso ideológico como “farol” no mundo muçulmano (o xiismo, dominante no Irão, recorde-se, é uma corrente ultra minoritário entre os seguidores do Alcorão, não representando mais de 10% a 15% do total no mundo).

A sua janela de oportunidade, de facto, é de uma década ou pouco mais; não só por razões técnicas de aprendizagem do enriquecimento do urânio e de consequente fabrico da bomba atómica, mas porque as configurações geopolíticas se terão acelerado por volta dos anos 2015 a 2020.

Contudo, o Irão tem mais olhos do que barriga (um pouco como Sadam) e acabará, ou por dar passos em falso que lhe custarão caro, ou o regime mudará (não pela via dos neo-cons) com o regresso da outra corrente política afastada nas últimas eleições.

Agora, afirma-se que o passo seguinte por parte dos EUA poderá ser o Irão.

Com base no cerco operacional a este país, a partir de vários países limítrofes, e na convicção de que os rivais do Irão no mundo muçulmano esfregarão as mãos com isso, uma parte da Administração Bush e alguns “tolos úteis” na Europa julgarão oportuno, ou antes das eleições a 7 de Novembro nos EUA, ou depois (se a maioria parlamentar actual for mantida), desencadear uma escalada face a esse país, explorando o esticar da corda pela actual liderança iraniana.

Simplesmente, o Irão não é o Iraque-bluff, nem o Afeganistão. Apesar de ser um país médio (menos de 70 milhões de habitantes), dispõe de um peso estratégico no mundo dos recursos muito mais relevante (o impacto de uma operação deste tipo será devastador para a tão afamada retoma económica e para a economia dos combustíveis fósseis), e o contexto geo-estratégico actual é diferente de há três anos atrás.

Também, a operação militar não será um «carpet bombing» fácil.

O peso da China, da Índia, do Pacto de Cooperação de Xangai (que inclui a Rússia e convidou o Irão) é maior do que em 2003, apesar de ainda não ser óbvio aos olhos de muita gente.

O que está em jogo no Irão, para todas estas potências, é muito mais do que esteve em jogo no Iraque. Não será (a concretizar-se) uma operação de tiro e queda com a CNN atrás.

O que uma operação deste tipo poderá gerar, segundo analistas que têm monitorizado o problema, serão “efeitos colaterais” inesperados – deitar para o lixo os milhões gastos no Iraque e as vidas ali perdidas; guerra de posições no Médio Oriente, com vários países envolvidos de um lado e de outro, segundo as linhas de fractura do mundo muçulmano e as linhas de fractura regionais; exploração pela rede terrorista global de elos fracos em países frágeis; retoma da instabilidade na Ásia do Pacífico (a Coreia do Norte é sempre uma carta cirúrgica para momentos oportunos) e na Península hindustânica; aproveitamento na América Latina para o fortalecimento de um “eixo de contenção” dos EUA, e movimentos geo-estratégicos da China e da Índia ainda pouco previsíveis.

Até que ponto uma “coligação” embrionária e eclética de “contenção” dos EUA poderá daqui sair é algo ainda com contornos indefinidos.

O mundo que sairá desta salgalhada em 2008 ou 2009 será em nada similar à visão do efeito multiplicador dos «regime change» idealizados pelos neo-neo-cons. A história é sempre parteira de algo novo, de facto. Mas poucas vezes do que os ideólogos pretendem.

E provavelmente o resultado será um ainda maior enfraquecimento da hegemonia norte-americana, a perca total de papel geopolítico da chamada Europa e mais uma pázada nas Nações Unidas.

A questão da multipolaridade

O mundo corre para um novo reequilíbrio de poderes durante os próximos 30 anos. O que sairá no final ainda nem se sabe ao certo – há muitos alvitres. Mas, por vezes, a história troca as voltas aos adivinhos.

Na transição tender-se-á para a multipolaridade.

Simplesmente, há muitas “variantes” de multipolaridade que poderão emergir nesse intervalo. Depende dos passos que cada parte der.

Por isso a proposta de um “Plano B” para o Irão, feita pela Trilateral Commission há algum tempo atrás (por exemplo ver, http://www.oilposter.org/blog/2006/07/text-of-terance-wards-aspo-talk.html), parece ser uma estrada aproveitável e que merece discussão.

Obviamente ela implica uma negociação multilateral e uma “acomodação” dos interesses do Irão no xadrez da zona, com apoio de um eixo vasto de grandes potências (ou seja, de TODAS as que hoje de facto começam a contar). Não há só uma maneira de fazer uma “contenção higiénica” do Irão.