Dom 22 Out 2006
A imbecilidade “europeia” – cubram a cara com um véu, mas de vergonha
Por JNR na secção Sociedade abertaainda sem comentários
O tema do véu islâmico pegou em Outubro. Depois do ministro Jack Straw britânico, foi a vez do primeiro-ministro italiano Romano Prodi. Straw foi ministro dos negócios estrangeiros inglês e Prodi presidente da Comissão Europeia, mas é claro que os cargos em parte alguma são um antivírus para a imbecilidade política.
A Europa corre o risco de uma vaga de estupidez política alastrar.
O argumento de Straw é simplista: o véu (uma componente do hijab, como vestimenta islâmica) é uma ferramenta de “separação e diferença visível”. Daí que recomendasse que as cidadãs de véu do seu círculo eleitoral (Blackburn) o tirassem quando quisessem falar com ele.
Por essa teoria geral da separação e da diferença visíveis, os homens judeus (com os seus quipás e peiotes, ou aqueles fatos negros e chapéus altos), as velhotas viúvas do interior profundo de Portugal, Espanha, Itália ou Grécia com os seus trajes soturnos, os padres católicos fundamentalistas com suas batinas negras, ou os religiosos cristãos ortodoxos, ou mesmo os góticos já agora, deveriam passar pelo “crivo” das boas maneiras e da “limpeza” da poluição visual para falarem com o senhores Straw e Prodi.
Uma marreta para partir um ovo
Prodi armado da sua inteligência “de senso comum” argumenta que é uma questão de “não se esconder”. Straw e Prodi gostariam de ver as carinhas larocas das islamitas.
Os franceses tinham em 2004 imposto uma lei para as escolas públicas sob o argumento da “ostensividade” dos símbolos religiosos. Pioneiros como sempre na pior vertente da imbecilidade jacobina.
Mas este assunto não é para rir: é a ponta do icebergue do ataque à sociedade aberta, que é hoje a matriz da Europa (e que custou muito sangue em vários séculos contra os vários integrismos e totalitarismos).
Edgar Morin (http://edgarmorin.sescsp.org.br/), 85 anos, filho de judeus sefarditas, ex-comunista, e “pai” da teoria da complexidade, já em 2003 comentara a “inovação” francesa no jornal Le Monde (http://www.ldh-toulon.net/spip.php?article366): na sua imensa inteligência, as autoridades francesas “utilizaram uma marreta para partir um ovo”. E condenava a vaga contra a diferença.
Deitando mais uma acha para a fogueira, o secretário inglês do Interior, John Reid, teria incentivado à vigilância “popular” contra os integristas, inclusive dentro da própria família, num terreno em que o que parece de bom senso (os pais terem atenção a por onde andam os filhos) pode pisar rapidamente a fronteira do que é aceitável numa sociedade democrática. Confundindo, segurança profissional por corpos especializados do Estado com “securitarismo” de rua (algo que os totalitarismos sempre incentivaram) – enfim, demagogia populista, provavelmente uma vez mais por razões eleitoralistas.
Ora, uma das questões centrais da sociedade aberta é precisamente permitir a liberdade religiosa e de costumes, incluindo a exposição pública de símbolos, mesmo que inserida numa afirmação de diferença explícita. Estou particularmente à vontade para o “gritar”, pois não tenho qualquer interesse particular no assunto, sendo não religioso e laico.
O que deve ser criminalizado e severamente reprimido é o incentivo à violência a partir do púlpito da religião ou outro. O que deve ser proibido é o uso político da religião (como o fazem os partidos políticos confessionais, por exemplo, e os clérigos-politicos).
A questão dos “valores”
É claro que se um imigrante decide vir trabalhar para um dado país (seja na Europa ou noutro lado qualquer) tem de aceitar as regras e as disposições legais desse país. Isso é uma verdade de La Palisse. Se não aceita, o melhor é pôr-se a andar. Ou combater as disposições injustas por via democrática ou através da opinião pública internacional.Mas vamos por partes. Uma questão é acomodar-se à lei (como qualquer cidadão, aliás), outra questão é aceitar os “valores”. Certamente que o senhor Straw ou Prodi se fossem trabalhar para a Arábia Saudita teriam de se acomodar às regras locais. O que não significa que “aceitassem” os valores islâmicos. Sei lá, usar barbas longas (também não lhes ficava bem) e recitar o Alcorão, para me ficar por aqui.Por isso, o combate não é pela abolição do véu, ou a “conversão” dos rapazes de barbas longas e das senhoritas de véu aos “valores” europeus ou outros, mas pelo respeito que têm de ter pelas leis dos países democráticos que adoptam para trabalhar ou viver, ou em que nascem como segunda geração. Ou seja, se as infringem – tal como qualquer outro cidadão – serão julgados e punidos por isso. E mais severamente punidos se advogarem a violência para as infringir ou mudar em nome de qualquer política (“revolucionária”, integrista) ou religião (sharia ou outra disposição).
É um problema do exercício do Estado de Direito Democrático – não de imposição de “valores” europeus ou outros. As sociedades abertas não têm de converter ninguém aos valores A ou B – são baseadas justamente na divergência e diferença de muitos valores.
O que reprimem (no sentido literal do termo) são justamente os que pretendem, pela violência, impor os seus valores particulares (religiosos, de raça, de sonho redentista, de amanhãs que cantam, de “superioridade” ideológica, sei lá até de boas maneiras).
Os valores europeus da sociedade aberta têm justamente a ver com essa fronteira entre a vivência democrática e a conversão. É uma fronteira entre a democracia e o totalitarismo, seja ele qual for.
O combate é de facto em duas frentes:
- ideológico contra os “conversores” de valores de todas as cores (incluindo uma trupe de demagogos populistas e eleitoralistas agora em emergência em países tão democraticamente ancestrais, como a França e o Reino Unido; enfim sobre a Itália já é outra conversa);
- repressivo contra os integristas violentos ou que apelam à violência, pela sua prisão, julgamento, condenação e expulsão quando aplicável, e desmantelamento das suas redes e ambientes.