Sáb 28 Out 2006
Deixem-me passar 150 anos a correr: do Rinoceronte de Manuel I ao enterro do Projecto Global filipino
João II morreria em 1495 – antes das viagens memoráveis de Vasco da Gama (chega a Calecute, Índia, em 1498) e Pedro Álvares Cabral (“achamento” da costa brasileira em 1500), de que é lamentável não existirem filmes de impacto internacional como o que foi feito sobre Colombo (“Christopher Columbus”, 1985, realizado pelo italiano Alberto Lattuada).
Da fortuna ao «overstretch»
O monarca que tirou glória e proveito das duas primeiras vagas dos “Descobrimentos” foi o primo de João II, o monarca Manuel I (reinou de 1495 a 1521), a quem ficou colado o tal “estilo manuelino” (vale a pena uma escapadinha cá dentro – http://pt.wikipedia.org/wiki/Estilo_manuelino), uma exuberante embaixada (1513) a Leão X, o Papa da época, onde se deveria ter passeado um rinoceronte trazido da Índia (mas que se afundou com o barco onde ía)*, uma moeda de ouro chamada de “portugueses”, e uma Lisboa com 100 mil habitantes (10% da população do país), dos quais 10 mil escravos e 7000 estrangeiros, diz-se. A propósito o cognominaram de “afortunado”. [*O que não impediu Albrecht Durer de fazer uma xilogravura desenhando-o com base no que ouvira contar.]
Foi na época deste monarca que surgiu o galeão (1510) e apareceu o “Livro de Marinharia” (1514), um dos primeiros repositórios do conhecimento náutico lusitano.
Mas Manuel I acabaria indo na conversa de Afonso de Albuquerque, o 2º Vice-Rei da Índia (a partir de 1509), e optou pela estratégia do famoso “Império Português do Oriente”, contra a opinião de Francisco de Almeida, o 1º Vice-Rei, que defendia o princípio do domínio dos mares e da projecção de poder através da mobilidade.
Apesar da conclusão da primeira rede mundial de pontos estratégicos de projecção de poder ao longo das costas africanas, indianas e no Extremo Oriente, o “albuquerquismo” conduziria rapidamente ao que hoje se designa pela maleita do «overstretch» (um conceito divulgado por Paul Kennedy no seu livro The Rise and Fall of the Great Powers). Traduzido por miúdos, servem os ditados portugueses de “grande nau, grande tormenta” ou “mais olhos do que barriga”.
É claro que Albuquerque tinha um argumento de peso (no sentido literal do termo): o monopólio régio, da coroa, do comércio internacional (a famosa Casa da Índia).
Havía-se concluído uma deslocação colossal de poder económico: Lisboa passava a ser a metrópole do comercio global com a mudança do eixo geoestratégico do Mediterrâneo (e das Repúblicas italianas) para o Atlântico.
Mas, logo aqui, a maldita lei da vantagem “comparativa” nos matou: a famosa Feitoria da Flandres, fundada por João I em Bruges e que depois passaria para Antuérpia, acumularia um enorme défice em relação aos clientes/fornecedores flamengos, alemães e italianos, a tal ponto que João III a extinguiu.
Ou seja importávamos produtos de maior valor acrescentado e exportávamos «commodities» cujos preços paradoxalemente quebraram (para cerca de 1/5), fruto, precisamente, da nossa descoberta das novas rotas marítimas. [David Ricardo, o economista inglês filho de judeus de origem portuguesa, haveria de teorizar esta nossa “sina” geoeconómica no século XVIII e XIX. Pois é, a maleita é coisa antiga!!!]
João III traria em 1536 a Inquisição (Santo Ofício assim se chamava a associação de malfeitores) para Portugal e convidaria os Jesuítas de Inácio de Loyola a se estabelecerem no país em 1540 (a 1ª Casa da Companhia de Jesus seria fundada em 1542).
As duas opções ideológicas ajudariam ainda mais na nossa sina de uma medíocre vantagem “comparativa”: impediu a entrada das ideias protestantes (Martinho Lutero e as suas “95 teses” em 1517; depois João Calvino e as suas obras de 1536 a 1542) que, diz a vulgata de Max Weber, então, na Europa se associariam ao “espírito do capitalismo”.
Foi no tempo de João III, também, que o imperador Carlos V, que dominava Castela e Aragão, contratou o português Fernão de Magalhães para o que viria a ser a primeira viagem de circumnavegação do mundo (1519), concluída em 1522 por Sebastião del Cano. Portugal perdeu essa “première”.
O golpe de misericórdia no globalismo português não se faria esperar.
Sebastião, feito rei aos 3 anos de idade (em 1557), e tomando as rédeas do poder ainda «teenager» de 14 anos (1568), voltaria à estratégia liquidacionista das “políticas marroquinas” de Afonso V e acabaria sem glória nas areias de Alcácer Quibir em 4 de Agosto de 1578 com mais 9000 mortos por perto.
O ciclo português de primeira potência global durara mais de 150 anos.
O projecto fracassado dos Filipes
Fala-se que Filipe II – o primeiro da dinastia espanhola que governaria Portugal entre 1581 e 1640, pelo que na História portuguesa ficou designado como Filipe I – teria ainda idealizado o projecto de Lisboa (consta que ele passaria grande tempo pela cidade do Tejo) como capital global de um vasto império de além-mar saído da “fusão”.
Filipe II foi, também, o primeiro rei formal da “Espanha” (até ali era uma aliança entre Castela e Aragão), um projecto de potência europeia (além da Península, dominava boa parte da Itália e dos Países Baixos, no espaço que é hoje formado pela Bélgica e Holanda) e global (um império “em que o sol nunca se punha”, desde as Américas à Ásia), um desejo e um mito que duraria, no entanto, pouco mais de sessenta anos.
Os Filipes envolveram-se nas disputas hegemónicas europeias e acabariam por ser derrotados na sua mania de invencíveis logo em 1588 quando a Grande y Felicísima Armada apanhou uma tareia dos ingleses e do temporal.
Mais tarde, metidos até ao pescoço na Guerra dos Trinta Anos (de 1618 até à Paz de Vestafalia em 1648) e no esmagamento da Catalunha (que o francês Richelieu instigara contra Madrid), acabariam por dar uma aberta aos portugueses (1640) e perderiam, definitivamente, a parte norte dos Países Baixos (desde a criação da União de Utreque em 1579, até que Espanha reconheceu a independência das Províncias Unidas da Holanda em 1648).
Em 1608, um jurista holandês, Hugo Grocio, teorizou a doutrina do “Mare Liberum” – o princípio da liberdade de navegação – que poria fim à doutrina portuguesa do “Mare Clausum” e ao Tratado de Tordesilhas.
Com as trapalhadas em que se meteram os Filipes, o domínio das rotas do Oriente passou paulatinamente para as Companhias das Índias Orientais da Inglaterra (East India Company, criada por Isabel I, em 1600) e da Holanda (VOC, criada em 1602). Holandeses, ingleses (que designariam então o seu “Império das Índias”) e franceses lançaram-se por todo o lado na conquista de posições outrora portuguesas no Brasil, em África e na Ásia, algumas das quais se retomariam depois de 1640.
Finalmente, com o desgraçado do monarca Carlos II, a Espanha entraria em colapso.
Da confusão europeia, emergia a Holanda como potência global no final do século XVII. Provavelmente um dos sinais deste facto foi, particularmente, sentido pelos portugueses, que foram corridos do ponto estratégico de Malaca em 1641. Em 1688, Guilherme III de Orange e Nassau, o governador (designado por stadholder) da Holanda, ascendia ao trono de Inglaterra, Escócia e Irlanda, em virtude de uma história rocambolesca que não vem aqui ao caso, excelentemente retratada numa série inglesa de televisão.
A aliança anglo-holandesa serviria aos Ingleses para emergirem na sombra ao longo de setenta anos.
Continuará em Grandes Portugueses III: A opção pela dependência da potência hegemónica emergente