little_red_book.jpgHá 40 anos, em Agosto, Mao Zedong (Mao Tsé-Tung, como se quiser dizer), lançou na China a Revolução Cultural (em linguagem da época, designada por “Grande Revolução Cultural Proletária”).

Os ecos em Portugal, então uma ditadura, eram filtrados e a um jovem de liceu como eu só chegariam dois anos mais tarde, num café (hoje inexistente) de esquina de uma avenida principal da cidade de província em que vivia, pelas mãos de um conterrâneo, vindo da tropa em Macau, que hoje é um editor consagrado da nossa praça.

Foi com 16 aninhos que tomei contacto com esta China pela via do papel de seda (como lhe chamávamos) numa edição das Éditions en Langues Étrangeres, de Pequim. O “Livrinho Vermelho” com mais de 400 citações do pensamento do líder chinês era uma espécie de enciclopédia rápida do revolucionarismo, que viria a influenciar profundamente uma boa parte da minha geração de pequeno-burgueses urbanos radicais (como acusava Álvaro Cunhal, o líder do PCP, a quem chamávamos de ‘revisionista’) nascidos nos anos 1950 e que ainda viveram vinte e tal anos em ditadura.

Tive oportunidade de ler e reler, depois, muitas das obras de Mao, e algumas deixaram uma impressão de longa duração – os artigos sobre a dialéctica, a contradição e o antagonismo, ou os escritos militares ainda hoje são distintivos, e seriam úteis a muito político e comentador.

A morte das ilusões no Verão de 79

A imagem que tinha da China era fruto de uma “religião”, alimentada pelas letras miudinhas da “Pékin Information”, uma espécie de newsletter devorada pelos esquerdistas maoistas. Com a morte do ‘Grande Timoneiro’ em Setembro de 1976 e a subsequente queda do chamado Bando dos Quatro (liderado pela viúva de Mao) em Outubro desse ano (precisamente há 30 anos atrás), o véu sobre a China real começou a cair.

O mesmo fenómeno que a geração anterior à minha vivera com o conhecimento no terreno do “socialismo real” da URSS e dos efeitos do hegemonismo soviético (recorde-se Budapeste de Outubro de 1956 e depois Praga em 1968), sucedia, agora, com 10 ou 20 anos de atraso, à geração maoista.

O ano de 1979 foi particularmente marcante – o regresso de uma viagem à China em Julho por parte de uma delegação de camaradas da altura veio confirmar o que se começava a suspeitar sobre o aventureirismo económico, social e político de Mao. Nunca esquecerei o desalento e desconfiança de um dos membros da delegação, de origem operária, exclamando, que quando saiu “sorrateiramente, para fora do hotel, e passeou por uns quarteirões perto, encontrou a miséria mais chocante” (em Beijing, a capital). “Se era aquilo o socialismo verdadeiro…”.

Apesar de formalmente pouco beliscado, o chamado pensamento maozedong e o edifício que havia construído, particularmente desde 1957, começaram a ser desmantelados. O início de um “sistema legal” (como lhe chamaram então) e o lançamento da “política de quatro modernizações” (definida tendo como meta o ano 2000) deve-se a um grupo de políticos chineses que tiveram a coragem de fazer a ruptura. No início hesitante e ambígua (no período de transição liderado por Hua Guofeng) e depois consistentemente pelo pequeno Deng Xiaoping (a quem chamavam de o “pequeno Timoneiro”, por contraste físico com Mao).

O fim das ilusões sobre este “socialismo” alternativo ao soviético morreram nesse Verão de 79. Para usar a simbologia de Jean Paul Sarte, começara para mim – e para boa parte da minha geração de esquerdistas a findar os “vinte” – a Idade da Razão.

Mas é justo que se digam algumas conclusões no campo geo-político.

A História escreve-se sempre por linhas tortas.

O regime totalitário instaurado por Mao valeu à China desde 1949 sair de uma posição humilhante de cócoras e pôr-se de pé. A tentativa anterior, liderada pelo republicano “europeísta” Dr. Sun Yat-sen, não o conseguira nos anos 1920. Contudo, o esquerdismo aventureiro do maoismo nunca permitiu fazer o take-off de uma estratégia de grande potência. Esse foi, provavelmente, o seu principal geo-handicap. Ao contrário do estalinismo e depois do krutchovismo, que empurraram a Rússia para o hegemonismo.

A essência da geo-estratégia de uma grande potência é a capacidade de construção de um sistema mundial de alianças, como diz o velho especialista George Modelski.

A URSS, depois da morte de Lenine, fê-lo paulatinamente, desde o abandono do “permanentismo revolucionário” trotskysta até à definição em 1924 da estratégia de “socialismo num só país” (que permitiria à Rússia se concentrar na sua edificação como potência) e ao controlo da Internacional Comunista (Komintern, como então se chamou até à sua dissolução em 1943). Com o Tratado de Yalta (1945), a URSS passou a sentar-se à mesa das grandes potências e criou o seu próprio espaço físico de influência. Mas coube o proveito a Nikita Krutchov a partir de 1956, que alargou a construção da coligação (com a doutrina da coexistência pacífica entre blocos) e depois a Brejnev a partir de 1964 (que com flexibilidade estratégica interveio inclusive bem dentro das “linhas europeias”, como aconteceu em Portugal em 1975). Um ciclo de mais de 50 anos até ao auge do hegemonismo soviético – que seria interrompido com a ruptura feita por Mikhail Gorbachov em 1985.

Apesar dos ciclos geracionais sucessivos que levaram à emergência da Nova China desde a Revolução Republicana de 1911 até à declaração solene da criação da chamada República Popular da China em Outubro de 1949, só em 1978 há uma ruptura “tectónica”. É provável que em 2008, aquando dos Jogos Olímpicos de Beijing, se celebre o pleno significado dessa viragem corporizada por Deng Xiaoping.

Ora Mao Zedong jamais conseguira delinear uma estratégia virada para a criação de um sistema mundial de alianças.

Paradoxalmente, foram as reformas dos anos 1980 e o pequeno Deng (que ainda em tempos de Mao e de Zhou Enlai formulara a chamada Teoria dos Três Mundos) que empurraram a China para a emergência como grande potência, o que se tornou óbvio nos vinte anos seguintes.

Deng sempre aspirara a um desígnio mundial para a China – tal como no campo económico. Mas a sua visão “marxiana” provavelmente o terá empurrado para uma doutrina por etapas: primeiro, o desenvolvimento económico, depois a resolução dos casos pendentes com a doutrina de “um país, dois sistemas” (Hong Kong e Macau; faltou Taiwan), e finalmente o mundo. Coube à geração actual na liderança já no século XXI iniciar uma estratégia de alianças passo-a-passo, baseada numa questão estrutural, o problema energético.

Viagens de um turista não acidental

Mas todo este percurso foi literário ao longo de mais de vinte anos. Apenas em 1990 visitei, pela primeira vez, a China, a partir de Macau, numa ronda pela província de Cantão – então a região do país em que o impacto da revolução económica capitalista sob o lema de “economia socialista de mercado” mais se sentia.

Fruto do acaso, isto aconteceu um ano depois da repressão de Tiananmen, em Beijing, que pôs fim a uma curta “Primavera Chinesa” em que os «dazibao» (jornais de parede com grandes caracteres, uma moda que ficara da Revolução Cultural) de rua no “Muro da Democracia” falavam, pela primeira vez, de democracia política.

Nesta primeira vez, o grupo visitante tinha “escolta”: além da intérprete (uma jovem que ganhava mais em dólares de Hong Kong num mês do que um reitor de universidade num ano), havia sempre um “duplo”, do Partido, presente, que escrutinava os nossos olhares e risos e nos traçava os trajectos permitidos. Vivíamos no dia-a-dia com ‘FEC’ (foreign exchange certificate, a divisa para estrangeiros) e só podíamos comprar em dólares nas ‘Lojas do Povo’ (estatais).

Visitei, depois, o país quase todos os anos até 1998 – os “duplos” desapareceram e os movimentos de estrangeiros tornaram-se fluidos.

Desses oito anos de viagens guardo algumas recordações particulares.

O impacto impressionante dos milhões de bicicletas em Cantão – e do primeiro negócio de empreendedores de rua, os mecânicos privados que arranjavam pneus, faróis e guiadores. As filas para telefonar, em lojas privadas, em que um velho telefone dos anos 1950 era explorado por micro-comerciantes.

Em 1995 estive, pela primeira vez, em Beijing. Para além de ir aos arredores passear na Muralha da China, o pequeno detalhe mais impressionante foi uma noite de conversa com a editora da revista de gestão dos jovens comunistas chineses e um regresso ao hotel pelas quatro da manhã num pequeno táxi que teve um furo a meio de uma daquelas enormes avenidas sem vivalma.

A chinesinha elegante falava pouco inglês, e quase tudo era via intérprete, mas deu para perceber o impressionante interesse da jovem doutora em perceber o outro lado do mundo. Visitar a um sábado o Hard Rock Café de Beijing era, então, também, uma experiência única, ou comer num restaurante de ex-médicos de pés descalços (do tempo da Revolução Cultural) em que os novos ricos ostentavam propositadamente o seu cash. Muitos deles eram antigos quadros do Partido, agora novos “capitalistas vermelhos” que haviam respondido ao apelo “Quanmin Jieshang” (Montem todos um negócio!).

O «underground» continuava, no entanto, a mexer e pude falar com os fundadores do “O Túnel” que foram dos primeiros a aproveitar o «boom» da Web para exprimir o sentimento político democrático (a ler em http://www.janelanaweb.com/vento/tunel.html).

Foi por essa altura, que um livro de William H. Overholt me deu uma primeira imagem global da China pós-reformas. O seu título era óbvio: “China, a Próxima Superpotência”, que viria a ser publicado em português pela Difusão Cultural, por sugestão minha à Margarida Fonseca. A revisão técnica que fiz da tradução levou-me a aprofundar este lado do antigo Império do Meio.

Finalmente, Xangai, que teve, talvez, o maior impacto visual – passeei no ‘Bund’, ainda do outro lado do rio se começava a construir Pudong. Havia, na altura, a torre da televisão e pouco mais. Xangai era um estaleiro impressionante e num dos hotéis mais luxuosos passavam ‘Mister Bean’ no restaurante, o que desencadeou risadas monumentais. A venda de velharias pelas ruas por trás do hotel e as lojas de roupa remodeladas com manequins de madeira dos anos 60 à porta em fila indiana – eram outros fait-divers.

O ciclo estava quase fechado – o da China como grande potência emergente e o meu nesta caminhada lenta para a compreensão do fenómeno.

O projecto comum de uma tradução de um livro

Em 2003, a consultora Goldman Sachs divulgava o relatório (ver em http://www2.goldmansachs.com/insight/research/reports/99.pdf ) que tornaria famosos os BRIC, a começar pela China como número um na pol-position. O «Ocidente» abanou e as revistas de economia começaram a trazer a China na capa.

A revelação pela revista The Economist (”Special Survey on China’s Economic Role“, 2 a 8 de Outubro de 2004) que a China será a primeira potência económica mundial em 2020 – se o seu PIB for medido em paridade de poder de compra – deixou muitos leitores em todo o mundo estupefactos; a Goldman Sachs só o previa para 2050!

Foi, então, que conheci (via web) Zhibin Gu, um consultor “insider”, e depois de vários contactos em 2004 e entrevistas publicadas (ver por exemplo, http://www.gurusonline.tv/uk/conteudos/gu_report.asp#1) embarcámos no projecto de traduzir e adaptar para português um livro que ele então lançara em inglês, sob o título “China’s Global Reach”.

Dez anos depois da tradução do livro de Overholt, embarquei na aventura de produzir “Made in China”, desta vez um olhar de um nativo, (http://www.centroatl.pt/titulos/pesq_titulos.php3?pchave=Made+in+China), que revelou a China comum que dá passos na expressão de muitos aspectos de uma sociedade aberta que explora nichos num regime ainda totalitário. Há uma verdadeira “Primavera” nalguns interstícios da sociedade. Algo a seguir de perto, e a não menosprezar.

Gu, que vive e trabalha em Shenzhen (Província de Cantão, uma cidade que engordou desmesuradamente graças a ser uma Zona Economica Especial experimental nos anos 1980), é de uma contundência que poderá causar estranheza a um «ocidental»: ele considera publicamente, nos seus livros, que a abolição da burocracia imensa, massiva, criada por Mao, ainda no poder, é a tarefa política número um.

A atracção da China pela Europa

Mas, recentemente, apercebi-me de outro desenvolvimento estratégico da China… no coração da Europa.

«A Europa é uma sociedade mais aberta e, por isso, os chineses poderão aprender imenso» – Huang Ping

A Era da inspiração na estratégia de desenvolvimento dos ‘tigres’ asiáticos, e por interposta pessoa no modelo norte-americano, está encerrada na China. “Desde as reformas económicas dos anos 1970 até ao virar do século, só olhámos numa direcção, e não reconhecemos o potencial da Europa”, afirmou-me Huang Ping, 48 anos, director da Academia Chinesa de Ciências Sociais (ACCS), e um dos co-organizadores (com a portuguesa Maria João Rodrigues) da Conferência de Bruxelas União Europeia-China, que decorreu em Setembro passado.

Para este sociólogo que trabalha directamente com o Conselho de Estado em Beijing, e que se doutorou na London School of Economics em 1990, a conclusão é evidente: “Demos, nos últimos trinta anos, uma ênfase no lado económico do desenvolvimento, e, por isso, creio que agora há que mudar o nosso paradigma, para um maior equilíbrio entre a economia e a justiça social, entre a economia e o ambiente”. “As crises financeiras na Ásia nos anos 1990 foram um primeiro alerta de que os ‘tigres’ tinham problemas”, recorda Huang, que dirige a revista mensal ‘Dushu’, um órgão que exprime o pensamento da nova geração intelectual chinesa.

Com a emergência dentro de fronteiras de problemas ambientais e epidémicos graves, com o envelhecimento no horizonte e com o surgimento do desemprego explícito, a elite chinesa olha agora para “os diferentes modelos europeus” e em particular para as palavras-chave da Agenda de Lisboa. ‘Sociedade do conhecimento’, ‘crescimento sustentável’, ‘flexi-segurança’ (flexibilidade no emprego com protecção social) e ‘coesão social’ são algumas das «buzzwords» europeias que mais a atraem, sublinha Huang que, ironicamente, passou a ter o cargo de director-geral do Instituto de Estudos Americanos, na ACCS.

Também no campo político, o interesse pela União Europeia é grande: “Temos necessidade de uma boa governação e maior transparência. Estamos a estudar como realmente dirigir uma sociedade baseada no Estado de Direito. As novas gerações, com a Internet – que inclusive se espalha pelas regiões rurais – e a globalização – cada vez maior número vai ao estrangeiro –, têm uma maior consciência dessa necessidade. A Europa é uma sociedade mais aberta e, por isso, os chineses poderão aprender imenso”.

Daguo Xintai?

Para onde caminha a China? Será o próximo hegemonista, tomando o lugar da URSS numa disputa a dois, ou substituirá mesmo os EUA? Permanecerá o seu regime totalitário (continuamente reafirmado formalmente) ou alargar-se-ão os nichos de abertura política?

O ciclo longo da sua emergência (ou reemergência, se quisermos usar o conceito do falecido André Gunder-Frank) começou provavelmente em 1949 – com a frase de Mao “A China está de pé”, que mudou a sina do antigo Império do Meio que começara a decair geo-estrategicamente a partir de 1860 (com a 2ª Guerra do Ópio).

Mas foi a partir de 1978 com Deng que o período isolacionista efectivamente terminou. Se a história da ascensão dos EUA, na sombra (1890 a 1945), servir de padrão, a reemergência chinesa atravessará todo um tempo de Kondratieff (cinquenta a sessenta anos).

Há hoje um debate na élite do poder chinês – entre duas vias: “daguo xintai” (mentalidade de grande potência) ou “heping jueqi” (ascenção pacífica).

A intelectualidade (sem poder em Beijing) inclina-se para a reacção de estranheza quando lhe referimos que a China poderá ser a potência dominante do século XXI. Como nos dizia Gu: “Os chineses comuns ficam chocados quando os estrangeiros dizem isso. A China não está preparada para desempenhar um papel mais relevante. Muitos chineses preferem que a China seja um ’seguidor’ a líder”. Gu acaba de publicar nos Estados Unidos “China and the New World Order”, em que expressa esse ponto de vista.

As próximas décadas serão cruciais para se perceber que caminho tomará. A única solução é estar de olho aberto.