Seg 16 Out 2006
O co-editor deste blogue recomendou um interessante artigo de Robert Kaplan (“When North Korea falls“) na The Atlantic Montlhy (uma vetusta revista com sede nas docas de Boston onde o saudoso Peter Drucker escreveu algumas das suas mais memoráveis peças), edição de Outubro 2006.
Kaplan levanta um véu interessante – o papel da China em toda a questão do regime da Coreia do Norte e o seu interesse estratégico naquela parte norte da Península. Kaplan fá-lo naturalmente de um ponto de vista norte-americano (aconselhando a perceberem-se os cenários possíveis).
É um facto que a Coreia do Norte explora uma janela de oportunidade – ou seja, o facto da China e dos EUA não se terem ainda entendido sobre a questão do futuro desse país. Além, da turbulência geral do mundo, neste período de transição proto-multipolar.
Kim é uma espécie de piolho parasita deambulando num nicho geopolítico.
A solução de uma reunificação não poderá seguir o modelo Alemão do pós-queda Muro de Berlim – como muitos democratas esperam -, e também não é exequível um «regime change» do tipo que o Vietname do Norte conseguiu sobre o Vietname do Sul (com a saída dos norte-americanos) – como continuam a sonhar os herdeiros do defunto sovietismo e os compagnons de route dos regimes totalitários.
Aos interesses estratégicos da China não agrada uma solução de implosão ou derrota do regime de Kim que conduza à ocupação estratégica e cerco à China por parte de uma projecção norte-americana mais para norte na Península. Essa ambição dos neo-neo-cons, quando meteram Kim no “eixo do Mal”, é fortemente contraproducente para as outras potências da Ásia Pacífico. A Ásia não é um Mare Nostrum dos EUA.
Os chineses não estão dispostos a assistir ao que os russos tiveram de engolir depois da implosão da URSS com as projecções de posição dos EUA no eixo de novos países independentes asiáticos e euro-asiáticos da antiga Federação soviética. Não me estou a referir ao que é chamado de ex-Europa de Leste (cuja órbita da União Europeia é o seu raio de sobrevivência estratégica).
Também o Japão quer ter uma palavra a dizer, como se tem visto.
Convém, por isso, reduzir a questão da Coreia do Norte à sua real dimensão.
A Coreia do Norte parece que é militarmente mais capaz do que um Irão ou do que era o Iraque-bluff (que retalhado depois da derrota da Guerra do Golfo e sem quaisquer ditas armas de destruição massiva, era uma presa fácil). Mas convém não exagerar sobre a Coreia do Norte – inclusive não se sabe ao certo o que é bluff, e o que é realidade. Os próprios norte-americanos e sul-coreanos deram explicações contraditórias sucessivas sobre o tipo destes testes. Provavelmente os chineses saberão o que se passou exactamente, mas isso nunca nos dirão, nem mesmo em off the record aqui ao nosso ouvidinho.
A Coreia do Norte não é uma Alemanha nazi e muito menos uma URSS stalinista – estes dois regimes tinham estratégias de grande potência -, apesar de ser um estado totalitário da mais fina espécie (nem Orwell suspeitaria). Também não é uma Sérvia pós-Tito à procura de continuar um projecto de “grande” Sérvia.
Por isso, coloquemos as coisas nas suas devidas proporções. Piolho é piolho, mesmo que maléfico para a saúde.