Os media começaram a debater quem será a próxima potência com capacidade militar nuclear.

Mas o que não expõem é o porquê do alargamento da geometria variável do clube. Porque razão o Mundo, esse malandro, se está, uma vez mais, a “vingar” das boas intenções.

Os últimos factos aceleraram o debate: a Coreia do Norte teria realizado testes agora recentemente; a India conseguiu que os Estados Unidos se “acomodassem” ao seu estatuto de potencia militar nuclear (em Julho surgiu o Tratado US-India Civilian Nuclear Co-operation); e há toda esta azáfama em torno do Irão (que, no entanto, ainda estará nos primórdios da cadeia).

O primeiro sinal de que o Clube entrara em período de instabilidade ficou às claras em 1998, quando duas potências regionais fronteiriças fizeram testes de armas nucleares: a Índia (que teria começado a aventura com uma primeira detonação em 1974) e o Paquistão.

O que é que este sinal significava? Que potências fronteiriças entravam na corrida armamentista nuclear como argumento político de “destruição mútua assegurada” (uma ideia que nasceu na Guerra Fria, como pilar da “coexistência pacífica” que então regulava os equilíbrios entre os dois hegemonistas).

O significado político deste passo é simples – a legitimidade deste recurso, que, até então, estava limitado oficialmente aos fundadores do Clube (EUA desde 1945; URSS desde 1949; Reino Unido desde 1952; França desde 1954; China desde 1964) e clandestinamente a Israel (sem data ainda apurada) e à África do Sul no final do regime do apartheid (que teria 6 armas que destruiu quando renunciou ao seu uso).

Fruto deste passado, existirão ainda hoje em seis países “fundadores” umas 13000 armas nucleares. Se adicionarmos os dois vizinhos industânicos, o número subirá ligeiramente.

Apesar do Tratado de Não Proliferação Nuclear ter sido renovado em 1995 (e de contar com 187 signatários; a Coreia do Norte saíu em 2003 do acordo), a implosão da URSS e o paradoxal declínio do hegemonista que restou (os EUA) abriu uma janela de oportunidade para um alargamento da multipolaridade nesta área. Essa é a primeira razão “estrutural”, dificilmente removível. Não há discurso que valha.

Mas a segunda razão política veio deitar mais óleo no lume.

A Administração Bush com a sua teoria da legitimidade do «regime change», do ataque «pre-entivo» e do uso eventual de armas táticas nucleares nessas operações de projecção de força, veio difundir uma doutrina do retorno ao nuclearismo como arma política essêncial. Agora, não num confronto “previsivel”, bipolar, mas num conceito difuso, de facto, de geometria variável.

Os neo-neo-conservadores dos EUA julgaram que com tal contundência, amedrontariam o resto, que não desafiaria o seu hegemonismo, agora que reinaria a solo.

Mas, como sempre, o Mundo vinga-se: o que é valido para os Estados Unidos porque não poderá ser útil para os outros?

Os conflitos regionais fronteiriços por resolver passarão a estar sob a ameaça desta eventualidade dos países em litígio quererem dispôr desta arma de último recurso ou de disuasão.

Não há só graves problemas limitrofes entre India e Paquistão. Há-os no Médio Oriente. Há-os entre Taiwan e a China. Há-os entre as Coreias. Par citar alguns exemplos de antologia. Poderão haver na fronteira euro-asiática, entre países que saíram da URSS e hoje litigam amiúde com a Rússia.

Os países totalitários encurralados (como a ultra-militarista Coreia do Norte) ou as potências regionais que se sintam ameaçadas pelo «regime change» (venha ele de que lado vier) julgam-se com legitimidade para embarcar nesta via.

Finalmente, potências emergentes regionais ou globais que haviam abandonado tais ideias – como o Brasil e a África do Sul – poderão reequacionar o assunto.

Há, neste ponto, uma questão técnica a aclarar: alguns países com a ambiação nuclear não precisam sequer de ter urânio enriquecido para fabricar armas nucleares, bastando-lhes aproveitar o plutónio dos resíduos das suas centrais. O perigo reside, também, em fenómenos como a proliferação, já que bastam 5 kg de plutónio para fabricar uma bomba nuclear com a potência da que foi lançada em Agosto de 1945 na Segunda Guerra Mundial em Nagasáqui, no Japão, alcunhada de “Fat Man”.

 

Uma próxima Administração Norte-americana terá de deitar fora toda essa doutrina “bushevique” (como já a alcunharam). Mas provavelmente já será tarde.

 

O vatícinio não é o melhor: a primeira metade do século XXI vai ter de se acomodar a uma nova corrida nuclear armamentista. Não necessariamente com a dimensão dos anos 1960 a 1980 – em 1986 chegou a dispor-se de mais de 70 mil armas nucleares.

 

O que exigirá de alguns “fundadores” do Clube – os EUA, a China e a Europa – bem como por parte de alguns emergentes – como a Índia -, um novo compromisso capaz de impôr um arrefecimento nas doutrinas da legitimidade do uso político de armas nucleares. Esse é o ponto central, a meu ver.