Seg 16 Out 2006
Colocou-me um leitor a questão de até onde poderiam ir os EUA na sua estratégia de “império”, entendendo por isso a sua projecção global com vista a garantir o seu papel de potência hegemónica.
Alguns autores norte-americanos já colocaram a questão de que há limites, a partir dos quais qualquer império sucumbe ao seu «overstrecht» (sobre-extensão).
Aliás, de um modo pragmático e terra-a-terra, o chefe do Estado Maior das Forças Armadas inglesas já o colocou claramente, ainda que, apenas, se referindo ao caso do Sul do Iraque. No entanto, o Reino Unido é hoje uma pálida imagem do antigo império de Sua Majestade (onde o sol nunca se punha), e tornou-se numa potência declinante “parasita” (no sentido de que parasita os EUA para se manter à tona no jogo mundial). Por isso, dirão, a opinião do homem é irrelevante (apesar do RU manter um grau de operacionalidade geo-militar muito eficaz – que ninguém o despreze). Mas levanta uma questão importante: onde focalizar a projecção de poder; como manter uma “almofada” operacional disponível para um projecção de poder em novos eventos mais graves; como não se deixar consumir em atoleiros.
O problema do «overstrecht» remete para um debate antigo sobre a projecção móvel (de potência global que assenta o seu hegemonismo na mobilidade) e a construção “imperial” em profundidade (em geral uma grande potência quando se mete por estes caminhos é sinal de senilidade no sentido da curva da experiência e do ciclo hegemónico).
A nós portugueses, o problema fateu forte, em tempos idos. O fim do gobalismo português de Quinhentos começou aquando do debate entre Francisco de Almeida (1505) e Afonso de Albuquerque (1509) na Índia. É este último que leva na História o galardão de grande senhor, o senhor que construíu o “Império Português do Oriente”.
Mas era Francisco de Ameida, o primeiro Vice-Rei, que tinha razão – ele advogava a concentração da projecção estratégica no domínio dos mares (o “terreno” fundamental nesta primeira vaga de globalização) e na mobilidade. Afonso de Albuquerque, pelo contrário, acalentava o mito de um vasto império “ultramarino” assente na projecção em profundidade no terreno. E o rei português da altura, Manuel I, foi na conversa de Albuquerque. The rest is history.
Não tardaria que o famoso império português sofresse de «overstretch».
Ter mais olhos do que barriga nunca é bom conselheiro.
O mesmo se passará com os americanos.