Outubro 2006


rinocero.jpgDeixem-me passar 150 anos a correr: do Rinoceronte de Manuel I ao enterro do Projecto Global filipino

João II morreria em 1495 – antes das viagens memoráveis de Vasco da Gama (chega a Calecute, Índia, em 1498) e Pedro Álvares Cabral (“achamento” da costa brasileira em 1500), de que é lamentável não existirem filmes de impacto internacional como o que foi feito sobre Colombo (“Christopher Columbus”, 1985, realizado pelo italiano Alberto Lattuada).

Da fortuna ao «overstretch»

O monarca que tirou glória e proveito das duas primeiras vagas dos “Descobrimentos” foi o primo de João II, o monarca Manuel I (reinou de 1495 a 1521), a quem ficou colado o tal “estilo manuelino” (vale a pena uma escapadinha cá dentro – http://pt.wikipedia.org/wiki/Estilo_manuelino), uma exuberante embaixada (1513) a Leão X, o Papa da época, onde se deveria ter passeado um rinoceronte trazido da Índia (mas que se afundou com o barco onde ía)*, uma moeda de ouro chamada de “portugueses”, e uma Lisboa com 100 mil habitantes (10% da população do país), dos quais 10 mil escravos e 7000 estrangeiros, diz-se. A propósito o cognominaram de “afortunado”. [*O que não impediu Albrecht Durer de fazer uma xilogravura desenhando-o com base no que ouvira contar.]

Foi na época deste monarca que surgiu o galeão (1510) e apareceu o “Livro de Marinharia” (1514), um dos primeiros repositórios do conhecimento náutico lusitano.

Mas Manuel I acabaria indo na conversa de Afonso de Albuquerque, o 2º Vice-Rei da Índia (a partir de 1509), e optou pela estratégia do famoso “Império Português do Oriente”, contra a opinião de Francisco de Almeida, o 1º Vice-Rei, que defendia o princípio do domínio dos mares e da projecção de poder através da mobilidade.

Apesar da conclusão da primeira rede mundial de pontos estratégicos de projecção de poder ao longo das costas africanas, indianas e no Extremo Oriente, o “albuquerquismo” conduziria rapidamente ao que hoje se designa pela maleita do «overstretch» (um conceito divulgado por Paul Kennedy no seu livro The Rise and Fall of the Great Powers). Traduzido por miúdos, servem os ditados portugueses de “grande nau, grande tormenta” ou “mais olhos do que barriga”.

É claro que Albuquerque tinha um argumento de peso (no sentido literal do termo): o monopólio régio, da coroa, do comércio internacional (a famosa Casa da Índia).

Havía-se concluído uma deslocação colossal de poder económico: Lisboa passava a ser a metrópole do comercio global com a mudança do eixo geoestratégico do Mediterrâneo (e das Repúblicas italianas) para o Atlântico.

Mas, logo aqui, a maldita lei da vantagem “comparativa” nos matou: a famosa Feitoria da Flandres, fundada por João I em Bruges e que depois passaria para Antuérpia, acumularia um enorme défice em relação aos clientes/fornecedores flamengos, alemães e italianos, a tal ponto que João III a extinguiu.

Ou seja importávamos produtos de maior valor acrescentado e exportávamos «commodities» cujos preços paradoxalemente quebraram (para cerca de 1/5), fruto, precisamente, da nossa descoberta das novas rotas marítimas. [David Ricardo, o economista inglês filho de judeus de origem portuguesa, haveria de teorizar esta nossa “sina” geoeconómica no século XVIII e XIX. Pois é, a maleita é coisa antiga!!!]

João III traria em 1536 a Inquisição (Santo Ofício assim se chamava a associação de malfeitores) para Portugal e convidaria os Jesuítas de Inácio de Loyola a se estabelecerem no país em 1540 (a 1ª Casa da Companhia de Jesus seria fundada em 1542).

As duas opções ideológicas ajudariam ainda mais na nossa sina de uma medíocre vantagem “comparativa”: impediu a entrada das ideias protestantes (Martinho Lutero e as suas “95 teses” em 1517; depois João Calvino e as suas obras de 1536 a 1542) que, diz a vulgata de Max Weber, então, na Europa se associariam ao “espírito do capitalismo”.

Foi no tempo de João III, também, que o imperador Carlos V, que dominava Castela e Aragão, contratou o português Fernão de Magalhães para o que viria a ser a primeira viagem de circumnavegação do mundo (1519), concluída em 1522 por Sebastião del Cano. Portugal perdeu essa “première”.

O golpe de misericórdia no globalismo português não se faria esperar.

Sebastião, feito rei aos 3 anos de idade (em 1557), e tomando as rédeas do poder ainda «teenager» de 14 anos (1568), voltaria à estratégia liquidacionista das “políticas marroquinas” de Afonso V e acabaria sem glória nas areias de Alcácer Quibir em 4 de Agosto de 1578 com mais 9000 mortos por perto.

O ciclo português de primeira potência global durara mais de 150 anos.

O projecto fracassado dos Filipes

Fala-se que Filipe II – o primeiro da dinastia espanhola que governaria Portugal entre 1581 e 1640, pelo que na História portuguesa ficou designado como Filipe I – teria ainda idealizado o projecto de Lisboa (consta que ele passaria grande tempo pela cidade do Tejo) como capital global de um vasto império de além-mar saído da “fusão”.

Filipe II foi, também, o primeiro rei formal da “Espanha” (até ali era uma aliança entre Castela e Aragão), um projecto de potência europeia (além da Península, dominava boa parte da Itália e dos Países Baixos, no espaço que é hoje formado pela Bélgica e Holanda) e global (um império “em que o sol nunca se punha”, desde as Américas à Ásia), um desejo e um mito que duraria, no entanto, pouco mais de sessenta anos.

Os Filipes envolveram-se nas disputas hegemónicas europeias e acabariam por ser derrotados na sua mania de invencíveis logo em 1588 quando a Grande y Felicísima Armada apanhou uma tareia dos ingleses e do temporal.

Mais tarde, metidos até ao pescoço na Guerra dos Trinta Anos (de 1618 até à Paz de Vestafalia em 1648) e no esmagamento da Catalunha (que o francês Richelieu instigara contra Madrid), acabariam por dar uma aberta aos portugueses (1640) e perderiam, definitivamente, a parte norte dos Países Baixos (desde a criação da União de Utreque em 1579, até que Espanha reconheceu a independência das Províncias Unidas da Holanda em 1648).

Em 1608, um jurista holandês, Hugo Grocio, teorizou a doutrina do “Mare Liberum” – o princípio da liberdade de navegação – que poria fim à doutrina portuguesa do “Mare Clausum” e ao Tratado de Tordesilhas.

Com as trapalhadas em que se meteram os Filipes, o domínio das rotas do Oriente passou paulatinamente para as Companhias das Índias Orientais da Inglaterra (East India Company, criada por Isabel I, em 1600) e da Holanda (VOC, criada em 1602). Holandeses, ingleses (que designariam então o seu “Império das Índias”) e franceses lançaram-se por todo o lado na conquista de posições outrora portuguesas no Brasil, em África e na Ásia, algumas das quais se retomariam depois de 1640.

Finalmente, com o desgraçado do monarca Carlos II, a Espanha entraria em colapso.

Da confusão europeia, emergia a Holanda como potência global no final do século XVII. Provavelmente um dos sinais deste facto foi, particularmente, sentido pelos portugueses, que foram corridos do ponto estratégico de Malaca em 1641. Em 1688, Guilherme III de Orange e Nassau, o governador (designado por stadholder) da Holanda, ascendia ao trono de Inglaterra, Escócia e Irlanda, em virtude de uma história rocambolesca que não vem aqui ao caso, excelentemente retratada numa série inglesa de televisão.

A aliança anglo-holandesa serviria aos Ingleses para emergirem na sombra ao longo de setenta anos.

Continuará em Grandes Portugueses III: A opção pela dependência da potência hegemónica emergente

Em jeito de graçola – porque razão ingleses e franceses tiveram de escolher líderes do século XX

No concurso similar ao da RTP (Grandes Portugueses) que ocorreu em França, os franceses escolheram o calmeirão Charles de Gaulle (Nota: Napoleão, nem no «top» 10 entrou), e, no Reino Unido, os súbditos de sua magestade optaram pelo tipo do charuto, Winston Churchill (sobre quem acaba de sair mais um livro, escrito pela neta).

Dois estrategos do século XX a quem os dois países (e a Europa anti-totalitária) devem a sua sobrevivência face ao hegemonismo alemão. Daí que a memória geo-estratégica destes dois povos não tenha recuado mais.

Mas compreende-se.

No caso francês, Napoleão (desde 1º Consul em 1799 até ao final do seu mandato imperial em 1815), o corso da mão no peito, que tinha uma visão geo-estratégica para a Europa, foi derrotado na época. Mas injustamente nem no «top 10» o puseram. Chutaram-no para 16º. A conferir em Le Plus Grand Français de tous les temps, pela France 2 (http://en.wikipedia.org/wiki/Le_Plus_Grand_Fran%C3%A7ais). Os franceses estão loucos?

No caso inglês, o assunto é complicado. É que não há nenhum tipo da dimensão de um Henrique, o Navegador, apesar de ter sido a potência global que fez dois mandatos hegemónicos. Essa é que é a verdade nua e crua.

O período de viragem dos ingleses para potência hegemónica mundial deu-se depois do final da Guerra dos Sete Anos (1756-1763). Foi a época do grande economista Adam Smith (“A Riqueza das Nações”, 1776) – uma chatice era um escocês – e do arranque da Revolução Industrial (maldição: outro escocês, James Watt, 1769, com a máquina a vapor). John Byron faria a circumnavegação (1764-66), símbolo da potência global inglesa. Mas os britânicos eram então governados por um monarca, George III (reinado de 1760-1820), que, além de “alemão” (da dinastia dos Hanover), parece que foi envenenado ao longo do tempo, e viveu louco nos últimos tempos.

Haveria uma outra opção, mais antiga: um tipo chamado Oliver – não o do romance -, mas de apelido Cromwell (mandou entre 1649 e 1658). A chatice é que instaurou uma república (a Commonwealth of England), fez uma carnificina na Irlanda, e depois foi Lorde Protector, tendo exercido uma ditadura. Mas a ele se deve o 1º Acto de Navegação (1651) – primeiro sinal de uma visão hegemónica global. Apesar de tudo, ficou em 10º lugar no programa da BBC (Greatest Britons – http://en.wikipedia.org/wiki/100_Greatest_Britons).

infante_d_henrique.jpgPovo sem geo-memória só pode gerar país sem futuro

Henrique o Navegador, o maior estratego europeu de todos os tempos

(Texto de JNR e Ilustração de Paulo Buchinho)

O programa lúdico da RTP1 (vale a pena consultar o sítio e os múltiplos «posts» colocados pelos espectadores anónimos, em http://www.rtp.pt/wportal/sites/tv/grandesportugueses/) sobre os “Grandes Portugueses” é, de facto, um espelho do povo sem memória histórica de dimensão global que somos hoje.

No sítio certo

No debate da RTP1 ocorrido no Palácio de Queluz, apenas Fernando Nobre, o presidente da Assistência Médica Internacional (AMI), colocou a questão no sítio certo: os grandes portugueses deveriam ser “achados” entre os que tiveram geo-impacto, nos que “deram Mundos ao Mundo”.

E, nesse campo, há um que sobressai: Henrique, o Navegador, indiscutivelmente o maior estratego europeu de todos os tempos. Um activo da nossa História que tem sido malbaratado.

(mais…)

little_red_book.jpgHá 40 anos, em Agosto, Mao Zedong (Mao Tsé-Tung, como se quiser dizer), lançou na China a Revolução Cultural (em linguagem da época, designada por “Grande Revolução Cultural Proletária”).

Os ecos em Portugal, então uma ditadura, eram filtrados e a um jovem de liceu como eu só chegariam dois anos mais tarde, num café (hoje inexistente) de esquina de uma avenida principal da cidade de província em que vivia, pelas mãos de um conterrâneo, vindo da tropa em Macau, que hoje é um editor consagrado da nossa praça.

Foi com 16 aninhos que tomei contacto com esta China pela via do papel de seda (como lhe chamávamos) numa edição das Éditions en Langues Étrangeres, de Pequim. O “Livrinho Vermelho” com mais de 400 citações do pensamento do líder chinês era uma espécie de enciclopédia rápida do revolucionarismo, que viria a influenciar profundamente uma boa parte da minha geração de pequeno-burgueses urbanos radicais (como acusava Álvaro Cunhal, o líder do PCP, a quem chamávamos de ‘revisionista’) nascidos nos anos 1950 e que ainda viveram vinte e tal anos em ditadura.

Tive oportunidade de ler e reler, depois, muitas das obras de Mao, e algumas deixaram uma impressão de longa duração – os artigos sobre a dialéctica, a contradição e o antagonismo, ou os escritos militares ainda hoje são distintivos, e seriam úteis a muito político e comentador.

A morte das ilusões no Verão de 79

A imagem que tinha da China era fruto de uma “religião”, alimentada pelas letras miudinhas da “Pékin Information”, uma espécie de newsletter devorada pelos esquerdistas maoistas. Com a morte do ‘Grande Timoneiro’ em Setembro de 1976 e a subsequente queda do chamado Bando dos Quatro (liderado pela viúva de Mao) em Outubro desse ano (precisamente há 30 anos atrás), o véu sobre a China real começou a cair.

O mesmo fenómeno que a geração anterior à minha vivera com o conhecimento no terreno do “socialismo real” da URSS e dos efeitos do hegemonismo soviético (recorde-se Budapeste de Outubro de 1956 e depois Praga em 1968), sucedia, agora, com 10 ou 20 anos de atraso, à geração maoista.

O ano de 1979 foi particularmente marcante – o regresso de uma viagem à China em Julho por parte de uma delegação de camaradas da altura veio confirmar o que se começava a suspeitar sobre o aventureirismo económico, social e político de Mao. Nunca esquecerei o desalento e desconfiança de um dos membros da delegação, de origem operária, exclamando, que quando saiu “sorrateiramente, para fora do hotel, e passeou por uns quarteirões perto, encontrou a miséria mais chocante” (em Beijing, a capital). “Se era aquilo o socialismo verdadeiro…”.

Apesar de formalmente pouco beliscado, o chamado pensamento maozedong e o edifício que havia construído, particularmente desde 1957, começaram a ser desmantelados. O início de um “sistema legal” (como lhe chamaram então) e o lançamento da “política de quatro modernizações” (definida tendo como meta o ano 2000) deve-se a um grupo de políticos chineses que tiveram a coragem de fazer a ruptura. No início hesitante e ambígua (no período de transição liderado por Hua Guofeng) e depois consistentemente pelo pequeno Deng Xiaoping (a quem chamavam de o “pequeno Timoneiro”, por contraste físico com Mao).

O fim das ilusões sobre este “socialismo” alternativo ao soviético morreram nesse Verão de 79. Para usar a simbologia de Jean Paul Sarte, começara para mim – e para boa parte da minha geração de esquerdistas a findar os “vinte” – a Idade da Razão.

Mas é justo que se digam algumas conclusões no campo geo-político.

A História escreve-se sempre por linhas tortas.

O regime totalitário instaurado por Mao valeu à China desde 1949 sair de uma posição humilhante de cócoras e pôr-se de pé. A tentativa anterior, liderada pelo republicano “europeísta” Dr. Sun Yat-sen, não o conseguira nos anos 1920. Contudo, o esquerdismo aventureiro do maoismo nunca permitiu fazer o take-off de uma estratégia de grande potência. Esse foi, provavelmente, o seu principal geo-handicap. Ao contrário do estalinismo e depois do krutchovismo, que empurraram a Rússia para o hegemonismo.

A essência da geo-estratégia de uma grande potência é a capacidade de construção de um sistema mundial de alianças, como diz o velho especialista George Modelski.

A URSS, depois da morte de Lenine, fê-lo paulatinamente, desde o abandono do “permanentismo revolucionário” trotskysta até à definição em 1924 da estratégia de “socialismo num só país” (que permitiria à Rússia se concentrar na sua edificação como potência) e ao controlo da Internacional Comunista (Komintern, como então se chamou até à sua dissolução em 1943). Com o Tratado de Yalta (1945), a URSS passou a sentar-se à mesa das grandes potências e criou o seu próprio espaço físico de influência. Mas coube o proveito a Nikita Krutchov a partir de 1956, que alargou a construção da coligação (com a doutrina da coexistência pacífica entre blocos) e depois a Brejnev a partir de 1964 (que com flexibilidade estratégica interveio inclusive bem dentro das “linhas europeias”, como aconteceu em Portugal em 1975). Um ciclo de mais de 50 anos até ao auge do hegemonismo soviético – que seria interrompido com a ruptura feita por Mikhail Gorbachov em 1985.

Apesar dos ciclos geracionais sucessivos que levaram à emergência da Nova China desde a Revolução Republicana de 1911 até à declaração solene da criação da chamada República Popular da China em Outubro de 1949, só em 1978 há uma ruptura “tectónica”. É provável que em 2008, aquando dos Jogos Olímpicos de Beijing, se celebre o pleno significado dessa viragem corporizada por Deng Xiaoping.

Ora Mao Zedong jamais conseguira delinear uma estratégia virada para a criação de um sistema mundial de alianças.

Paradoxalmente, foram as reformas dos anos 1980 e o pequeno Deng (que ainda em tempos de Mao e de Zhou Enlai formulara a chamada Teoria dos Três Mundos) que empurraram a China para a emergência como grande potência, o que se tornou óbvio nos vinte anos seguintes.

Deng sempre aspirara a um desígnio mundial para a China – tal como no campo económico. Mas a sua visão “marxiana” provavelmente o terá empurrado para uma doutrina por etapas: primeiro, o desenvolvimento económico, depois a resolução dos casos pendentes com a doutrina de “um país, dois sistemas” (Hong Kong e Macau; faltou Taiwan), e finalmente o mundo. Coube à geração actual na liderança já no século XXI iniciar uma estratégia de alianças passo-a-passo, baseada numa questão estrutural, o problema energético.

Viagens de um turista não acidental

Mas todo este percurso foi literário ao longo de mais de vinte anos. Apenas em 1990 visitei, pela primeira vez, a China, a partir de Macau, numa ronda pela província de Cantão – então a região do país em que o impacto da revolução económica capitalista sob o lema de “economia socialista de mercado” mais se sentia.

Fruto do acaso, isto aconteceu um ano depois da repressão de Tiananmen, em Beijing, que pôs fim a uma curta “Primavera Chinesa” em que os «dazibao» (jornais de parede com grandes caracteres, uma moda que ficara da Revolução Cultural) de rua no “Muro da Democracia” falavam, pela primeira vez, de democracia política.

Nesta primeira vez, o grupo visitante tinha “escolta”: além da intérprete (uma jovem que ganhava mais em dólares de Hong Kong num mês do que um reitor de universidade num ano), havia sempre um “duplo”, do Partido, presente, que escrutinava os nossos olhares e risos e nos traçava os trajectos permitidos. Vivíamos no dia-a-dia com ‘FEC’ (foreign exchange certificate, a divisa para estrangeiros) e só podíamos comprar em dólares nas ‘Lojas do Povo’ (estatais).

Visitei, depois, o país quase todos os anos até 1998 – os “duplos” desapareceram e os movimentos de estrangeiros tornaram-se fluidos.

Desses oito anos de viagens guardo algumas recordações particulares.

O impacto impressionante dos milhões de bicicletas em Cantão – e do primeiro negócio de empreendedores de rua, os mecânicos privados que arranjavam pneus, faróis e guiadores. As filas para telefonar, em lojas privadas, em que um velho telefone dos anos 1950 era explorado por micro-comerciantes.

Em 1995 estive, pela primeira vez, em Beijing. Para além de ir aos arredores passear na Muralha da China, o pequeno detalhe mais impressionante foi uma noite de conversa com a editora da revista de gestão dos jovens comunistas chineses e um regresso ao hotel pelas quatro da manhã num pequeno táxi que teve um furo a meio de uma daquelas enormes avenidas sem vivalma.

A chinesinha elegante falava pouco inglês, e quase tudo era via intérprete, mas deu para perceber o impressionante interesse da jovem doutora em perceber o outro lado do mundo. Visitar a um sábado o Hard Rock Café de Beijing era, então, também, uma experiência única, ou comer num restaurante de ex-médicos de pés descalços (do tempo da Revolução Cultural) em que os novos ricos ostentavam propositadamente o seu cash. Muitos deles eram antigos quadros do Partido, agora novos “capitalistas vermelhos” que haviam respondido ao apelo “Quanmin Jieshang” (Montem todos um negócio!).

O «underground» continuava, no entanto, a mexer e pude falar com os fundadores do “O Túnel” que foram dos primeiros a aproveitar o «boom» da Web para exprimir o sentimento político democrático (a ler em http://www.janelanaweb.com/vento/tunel.html).

Foi por essa altura, que um livro de William H. Overholt me deu uma primeira imagem global da China pós-reformas. O seu título era óbvio: “China, a Próxima Superpotência”, que viria a ser publicado em português pela Difusão Cultural, por sugestão minha à Margarida Fonseca. A revisão técnica que fiz da tradução levou-me a aprofundar este lado do antigo Império do Meio.

Finalmente, Xangai, que teve, talvez, o maior impacto visual – passeei no ‘Bund’, ainda do outro lado do rio se começava a construir Pudong. Havia, na altura, a torre da televisão e pouco mais. Xangai era um estaleiro impressionante e num dos hotéis mais luxuosos passavam ‘Mister Bean’ no restaurante, o que desencadeou risadas monumentais. A venda de velharias pelas ruas por trás do hotel e as lojas de roupa remodeladas com manequins de madeira dos anos 60 à porta em fila indiana – eram outros fait-divers.

O ciclo estava quase fechado – o da China como grande potência emergente e o meu nesta caminhada lenta para a compreensão do fenómeno.

O projecto comum de uma tradução de um livro

Em 2003, a consultora Goldman Sachs divulgava o relatório (ver em http://www2.goldmansachs.com/insight/research/reports/99.pdf ) que tornaria famosos os BRIC, a começar pela China como número um na pol-position. O «Ocidente» abanou e as revistas de economia começaram a trazer a China na capa.

A revelação pela revista The Economist (“Special Survey on China’s Economic Role“, 2 a 8 de Outubro de 2004) que a China será a primeira potência económica mundial em 2020 – se o seu PIB for medido em paridade de poder de compra – deixou muitos leitores em todo o mundo estupefactos; a Goldman Sachs só o previa para 2050!

Foi, então, que conheci (via web) Zhibin Gu, um consultor “insider”, e depois de vários contactos em 2004 e entrevistas publicadas (ver por exemplo, http://www.gurusonline.tv/uk/conteudos/gu_report.asp#1) embarcámos no projecto de traduzir e adaptar para português um livro que ele então lançara em inglês, sob o título “China’s Global Reach”.

Dez anos depois da tradução do livro de Overholt, embarquei na aventura de produzir “Made in China”, desta vez um olhar de um nativo, (http://www.centroatl.pt/titulos/pesq_titulos.php3?pchave=Made+in+China), que revelou a China comum que dá passos na expressão de muitos aspectos de uma sociedade aberta que explora nichos num regime ainda totalitário. Há uma verdadeira “Primavera” nalguns interstícios da sociedade. Algo a seguir de perto, e a não menosprezar.

Gu, que vive e trabalha em Shenzhen (Província de Cantão, uma cidade que engordou desmesuradamente graças a ser uma Zona Economica Especial experimental nos anos 1980), é de uma contundência que poderá causar estranheza a um «ocidental»: ele considera publicamente, nos seus livros, que a abolição da burocracia imensa, massiva, criada por Mao, ainda no poder, é a tarefa política número um.

A atracção da China pela Europa

Mas, recentemente, apercebi-me de outro desenvolvimento estratégico da China… no coração da Europa.

«A Europa é uma sociedade mais aberta e, por isso, os chineses poderão aprender imenso» – Huang Ping

A Era da inspiração na estratégia de desenvolvimento dos ‘tigres’ asiáticos, e por interposta pessoa no modelo norte-americano, está encerrada na China. “Desde as reformas económicas dos anos 1970 até ao virar do século, só olhámos numa direcção, e não reconhecemos o potencial da Europa”, afirmou-me Huang Ping, 48 anos, director da Academia Chinesa de Ciências Sociais (ACCS), e um dos co-organizadores (com a portuguesa Maria João Rodrigues) da Conferência de Bruxelas União Europeia-China, que decorreu em Setembro passado.

Para este sociólogo que trabalha directamente com o Conselho de Estado em Beijing, e que se doutorou na London School of Economics em 1990, a conclusão é evidente: “Demos, nos últimos trinta anos, uma ênfase no lado económico do desenvolvimento, e, por isso, creio que agora há que mudar o nosso paradigma, para um maior equilíbrio entre a economia e a justiça social, entre a economia e o ambiente”. “As crises financeiras na Ásia nos anos 1990 foram um primeiro alerta de que os ‘tigres’ tinham problemas”, recorda Huang, que dirige a revista mensal ‘Dushu’, um órgão que exprime o pensamento da nova geração intelectual chinesa.

Com a emergência dentro de fronteiras de problemas ambientais e epidémicos graves, com o envelhecimento no horizonte e com o surgimento do desemprego explícito, a elite chinesa olha agora para “os diferentes modelos europeus” e em particular para as palavras-chave da Agenda de Lisboa. ‘Sociedade do conhecimento’, ‘crescimento sustentável’, ‘flexi-segurança’ (flexibilidade no emprego com protecção social) e ‘coesão social’ são algumas das «buzzwords» europeias que mais a atraem, sublinha Huang que, ironicamente, passou a ter o cargo de director-geral do Instituto de Estudos Americanos, na ACCS.

Também no campo político, o interesse pela União Europeia é grande: “Temos necessidade de uma boa governação e maior transparência. Estamos a estudar como realmente dirigir uma sociedade baseada no Estado de Direito. As novas gerações, com a Internet – que inclusive se espalha pelas regiões rurais – e a globalização – cada vez maior número vai ao estrangeiro –, têm uma maior consciência dessa necessidade. A Europa é uma sociedade mais aberta e, por isso, os chineses poderão aprender imenso”.

Daguo Xintai?

Para onde caminha a China? Será o próximo hegemonista, tomando o lugar da URSS numa disputa a dois, ou substituirá mesmo os EUA? Permanecerá o seu regime totalitário (continuamente reafirmado formalmente) ou alargar-se-ão os nichos de abertura política?

O ciclo longo da sua emergência (ou reemergência, se quisermos usar o conceito do falecido André Gunder-Frank) começou provavelmente em 1949 – com a frase de Mao “A China está de pé”, que mudou a sina do antigo Império do Meio que começara a decair geo-estrategicamente a partir de 1860 (com a 2ª Guerra do Ópio).

Mas foi a partir de 1978 com Deng que o período isolacionista efectivamente terminou. Se a história da ascensão dos EUA, na sombra (1890 a 1945), servir de padrão, a reemergência chinesa atravessará todo um tempo de Kondratieff (cinquenta a sessenta anos).

Há hoje um debate na élite do poder chinês – entre duas vias: “daguo xintai” (mentalidade de grande potência) ou “heping jueqi” (ascenção pacífica).

A intelectualidade (sem poder em Beijing) inclina-se para a reacção de estranheza quando lhe referimos que a China poderá ser a potência dominante do século XXI. Como nos dizia Gu: “Os chineses comuns ficam chocados quando os estrangeiros dizem isso. A China não está preparada para desempenhar um papel mais relevante. Muitos chineses preferem que a China seja um ‘seguidor’ a líder”. Gu acaba de publicar nos Estados Unidos “China and the New World Order”, em que expressa esse ponto de vista.

As próximas décadas serão cruciais para se perceber que caminho tomará. A única solução é estar de olho aberto.

 

infante.JPGUm americano e um brasileiro apresentaram na Áustria a tese de que os Portugueses de Quinhentos lançaram a primeira vaga de “contracção” do planeta, apoiados em duas gerações de inovações tecnológicas e geo-estratégicas.

A globalização foi uma inovação dos portugueses. Apesar das tentativas geo-estratégicas chinesas e mongóis dos séculos X a XV, foram os portugueses que inauguraram a globalização como um processo evolutivo de criação de um sistema mundial de 1415 até 1578.

Faltou “algo” aos projectos mongóis de “império mundial” e às expedições marítimas no Índico e Atlântico do almirante Zheng He, na dinastia Ming, entre 1405 e 1435, bem como às Repúblicas marítimas de Génova e Veneza que dominaram o Mediterrâneo nos séculos XIII e XIV.

Permanece, também, em muita literatura recente, a identificação errónea do “take off” da globalização com as viagens de Cristóvão Colombo às Caraíbas (1492-1503) e de circum-navegação de Fernão de Magalhães (1519-1521), ambas ao serviço de Espanha.

A tese dos portugueses como primeiros globalizadores foi apresentada em Março de 2006 pelo americano George Modelski e pelo brasileiro Tessaleno Devezas – professor na Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã – no ambiente bucólico de um dos palácios de Verão dos Habsburgos, em Laxenburg, a 16 quilómetros de Viena, de Áustria. O castelo, onde viveu a jovem “Kaiserin” Elizabeth – mais conhecida por Sisi – é desde 1973 a sede do International Institute for Applied Systems Analysis (LINKAR http://www.iiasa.ac.at/).

O estudo, intitulado “The Portuguese as system builders in the XVth-XVIth centuries: A case study in the role of technology in the evolution of the world system”, foi um dos pontos altos da Conferência “Globalização como um processo evolutivo”, apoiada pela Fundação Gulbenkian e que reuniu 25 investigadores de todo o mundo especializados no tema.

O ponto de vista de Modelski e Devezas é que a globalização “é um processo histórico longo de evolução do sistema mundial, que é multidimensional”. É prejudicial, por isso, reduzi-lo apenas à vertente geo-económica (comércio de “commodities” e fluxos de investimento internacionais) ou datá-lo a partir do século XIX com o crescimento do imperialismo europeu posterior à Revolução Industrial.

O primeiro uso do conceito “global” apareceu em 1892 nas páginas da revista Harper´s e em 1961 globalização entrou no dicionário Webster, acabando por destronar nos anos 1970 o termo francês “mundialização”. Desde os anos 1980 tornou-se uma “buzzword” – há mais de 5 mil títulos publicados e no Google podemos encontrar, só em quatro idiomas (inglês, francês, castelhano e português), mais de 170 milhões de entradas.

Fractura histórica

Os dois investigadores argumentam que a globalização foi um processo de aprendizagem que emergiu e amadureceu ao longo de vários séculos e que tem o seu berço numa “fractura histórica” inovadora provocada pelos portugueses desde os tempos do monarca João I e do príncipe Henrique, o Navegador. O investigador John L. Casti, do Círculo vienense Kenos, atribuiu aos portugueses uma mudança de estado de espírito, de valores – um novo “mood” -, que conduziu à globalização como fenómeno social.

Mas a globalização só foi possível porque ocorreu uma “clusterização” de inovações tecnológicas e geo-estratégicas realizadas pelos portugueses. Modelski e Devezas, baseados numa recolha histórica feita por um grupo de alunos da UBI, verificaram que os portugueses geraram uma série de “descontinuidades”, como a caravela, o princípio do nónio, a balestilha, a medição da altura, a nau e a rede de bases geo-estratégicas ao longo das duas rotas do Atlântico e do Índico, com capacidade de controlo exclusivo da navegação e de projecção de poder (desde os tempos da doutrina do “Maré Clausum”). Os dois especialistas classificam-nas de inovações “pré-schumpeterianas” que, no entanto, desenharam um padrão cíclico similar às vagas longas de Kondratieff (aplicadas à Revolução Industrial).

Henrique, o Navegador, lançou, provavelmente, o primeiro empreendimento de gestão do conhecimento de projecção global com a famosa “Escola de Sagres”, a que se seguiram o “Regimento do Astrolábio e do Quadrante”, a “Arte Náutica” e o “Livro da Fábrica das Naus”. Os portugueses foram os primeiros a “colar” um empenho científico sistemático no processo geo-estratégico em que se envolveram, sublinha o estudo apresentado em Viena. Alex MacGillivray, autor da recente obra Breve História da Globalização, considera o projecto de Sagres como “o equivalente ao Cabo Canaveral da NASA nos anos 1960″.

Entrevistas com George Modelski e Tessaleno Devezas, neste blogue, em os Geoconvidados.

veu.jpgO tema do véu islâmico pegou em Outubro. Depois do ministro Jack Straw britânico, foi a vez do primeiro-ministro italiano Romano Prodi. Straw foi ministro dos negócios estrangeiros inglês e Prodi presidente da Comissão Europeia, mas é claro que os cargos em parte alguma são um antivírus para a imbecilidade política.

A Europa corre o risco de uma vaga de estupidez política alastrar.

O argumento de Straw é simplista: o véu (uma componente do hijab, como vestimenta islâmica) é uma ferramenta de “separação e diferença visível”. Daí que recomendasse que as cidadãs de véu do seu círculo eleitoral (Blackburn) o tirassem quando quisessem falar com ele.

Por essa teoria geral da separação e da diferença visíveis, os homens judeus (com os seus quipás e peiotes, ou aqueles fatos negros e chapéus altos), as velhotas viúvas do interior profundo de Portugal, Espanha, Itália ou Grécia com os seus trajes soturnos, os padres católicos fundamentalistas com suas batinas negras, ou os religiosos cristãos ortodoxos, ou mesmo os góticos já agora, deveriam passar pelo “crivo” das boas maneiras e da “limpeza” da poluição visual para falarem com o senhores Straw e Prodi.

Uma marreta para partir um ovo

Prodi armado da sua inteligência “de senso comum” argumenta que é uma questão de “não se esconder”. Straw e Prodi gostariam de ver as carinhas larocas das islamitas.

Os franceses tinham em 2004 imposto uma lei para as escolas públicas sob o argumento da “ostensividade” dos símbolos religiosos. Pioneiros como sempre na pior vertente da imbecilidade jacobina.

Mas este assunto não é para rir: é a ponta do icebergue do ataque à sociedade aberta, que é hoje a matriz da Europa (e que custou muito sangue em vários séculos contra os vários integrismos e totalitarismos).

Edgar Morin (http://edgarmorin.sescsp.org.br/), 85 anos, filho de judeus sefarditas, ex-comunista, e “pai” da teoria da complexidade, já em 2003 comentara a “inovação” francesa no jornal Le Monde (http://www.ldh-toulon.net/spip.php?article366): na sua imensa inteligência, as autoridades francesas “utilizaram uma marreta para partir um ovo”. E condenava a vaga contra a diferença.

Deitando mais uma acha para a fogueira, o secretário inglês do Interior, John Reid, teria incentivado à vigilância “popular” contra os integristas, inclusive dentro da própria família, num terreno em que o que parece de bom senso (os pais terem atenção a por onde andam os filhos) pode pisar rapidamente a fronteira do que é aceitável numa sociedade democrática. Confundindo, segurança profissional por corpos especializados do Estado com “securitarismo” de rua (algo que os totalitarismos sempre incentivaram) – enfim, demagogia populista, provavelmente uma vez mais por razões eleitoralistas.

Ora, uma das questões centrais da sociedade aberta é precisamente permitir a liberdade religiosa e de costumes, incluindo a exposição pública de símbolos, mesmo que inserida numa afirmação de diferença explícita. Estou particularmente à vontade para o “gritar”, pois não tenho qualquer interesse particular no assunto, sendo não religioso e laico.

O que deve ser criminalizado e severamente reprimido é o incentivo à violência a partir do púlpito da religião ou outro. O que deve ser proibido é o uso político da religião (como o fazem os partidos políticos confessionais, por exemplo, e os clérigos-politicos).

A questão dos “valores”

É claro que se um imigrante decide vir trabalhar para um dado país (seja na Europa ou noutro lado qualquer) tem de aceitar as regras e as disposições legais desse país. Isso é uma verdade de La Palisse. Se não aceita, o melhor é pôr-se a andar. Ou combater as disposições injustas por via democrática ou através da opinião pública internacional.Mas vamos por partes. Uma questão é acomodar-se à lei (como qualquer cidadão, aliás), outra questão é aceitar os “valores”. Certamente que o senhor Straw ou Prodi se fossem trabalhar para a Arábia Saudita teriam de se acomodar às regras locais. O que não significa que “aceitassem” os valores islâmicos. Sei lá, usar barbas longas (também não lhes ficava bem) e recitar o Alcorão, para me ficar por aqui.Por isso, o combate não é pela abolição do véu, ou a “conversão” dos rapazes de barbas longas e das senhoritas de véu aos “valores” europeus ou outros, mas pelo respeito que têm de ter pelas leis dos países democráticos que adoptam para trabalhar ou viver, ou em que nascem como segunda geração. Ou seja, se as infringem – tal como qualquer outro cidadão – serão julgados e punidos por isso. E mais severamente punidos se advogarem a violência para as infringir ou mudar em nome de qualquer política (“revolucionária”, integrista) ou religião (sharia ou outra disposição).

É um problema do exercício do Estado de Direito Democrático – não de imposição de “valores” europeus ou outros. As sociedades abertas não têm de converter ninguém aos valores A ou B – são baseadas justamente na divergência e diferença de muitos valores.

O que reprimem (no sentido literal do termo) são justamente os que pretendem, pela violência, impor os seus valores particulares (religiosos, de raça, de sonho redentista, de amanhãs que cantam, de “superioridade” ideológica, sei lá até de boas maneiras).

Os valores europeus da sociedade aberta têm justamente a ver com essa fronteira entre a vivência democrática e a conversão. É uma fronteira entre a democracia e o totalitarismo, seja ele qual for.

O combate é de facto em duas frentes:
- ideológico contra os “conversores” de valores de todas as cores (incluindo uma trupe de demagogos populistas e eleitoralistas agora em emergência em países tão democraticamente ancestrais, como a França e o Reino Unido; enfim sobre a Itália já é outra conversa);
- repressivo contra os integristas violentos ou que apelam à violência, pela sua prisão, julgamento, condenação e expulsão quando aplicável, e desmantelamento das suas redes e ambientes.

Sairam esta semana dois artigos sobre a questão coreana que merecem uma leitura atenta.

Em “The Demise of the Global Arms Control Regime”, Harsh V. Pant, explica a alteração ocorrida após a queda do Muro de Berlim e os sinais dados pelos testes nucleares indianos de Maio de 1998. A sua conclusão é óbvia: “Uma nova arquitectura global de segurança é necessária (…) A velha estrutura de segurança falhou largamente”. A ler, sem falta, em www.pinr.com

Em “Um puro acto político”, Gary Samore, que participou nas negociações de 1994 com os norte-coreanos, avalia o sigificado político dos testes nucleares limitados ocorridos no regime de Kim e o papel que a China desempenha, necessariamente, neste xadrez. A ler em www.cfr.org/publication/11746/samore.html

A Escola de Gestão de Harvard e uma consultora de geo-política lançam ‘Global Risk Navigator’, uma ferramenta para apoiar os gestores nas suas decisões de investimento directo estrangeiro ou exportação

 

Avaliar o grau de risco político nas decisões de internacionalização nos países emergentes passou a ser possível na Web. A revista de gestão da Harvard Business School (Harvard Business Review) com o gabinete de consultores Eurásia, especializado em geopolítica, lançou o sítio www.navigaterisk.com, onde disponibiliza, temporariamente, uma demonstração gratuita de uma ferramenta de avaliação mensal do risco.

 

Dos 24 mercados emergentes seleccionados pelo ‘Global Risk Navigator’, curiosamente, nenhum é classificado de “baixa estabilidade” (alto risco) ou mesmo de “estado falhado” (risco máximo), apesar de países como o Irão – um dos integrantes do “Eixo do Mal” para a Administração norte-americana – e a Venezuela estarem nessa primeira lista de observação. Na avaliação de Setembro, quer o Irão quer a Venezuela manifestaram um índice de estabilidade moderada, e sem alteração prevista para Outubro.

 

Por outro lado, em relação aos 12 mercados externos emergentes, considerados prioritários em Portugal, oito têm estabilidade elevada (ver quadros). No entanto, os mais bem classificados são dois países da União Europeia oriundos da outrora chamada Europa de Leste – Hungria (que lidera o «ranking» dos emergentes) e Polónia, que inclusive melhorará o seu nível de estabilidade em Outubro.

 

Em relação a destinos de investimento muito falados em Portugal, como no caso do Brasil, a tendência para Outubro seria de melhoria do indicador de estabilidade, apesar do relatório da Euroasia vaticinar uma vitória do recandidato Lula logo à primeira volta, falhando na apreciação da capacidade de Geraldo Alckmin forçar uma segunda volta, como sucedeu no fim-de-semana passado. Também a China recebe um sinal de melhoria, dada a apreciação de que o presidente Hu Jintao estaria a consolidar o seu poder.

 

Os países de que dependemos em termos energéticos não conseguem mais do que uma classificação de “estabilidade moderada” e um deles poderá mesmo passar para “baixa estabilidade” – a Nigéria, onde 40% da produção está permanentemente em risco, em virtude da situação de guerra civil no Delta do Níger.

 

O conceito de risco utilizado nesta ferramenta não é o comum nas análises financeiras e económicas, nem nos comentários políticos correntes, muitas vezes escritos na base de reacções à flor da pele. O responsável da Eurásia, o analista geo-político e geo-económico Ian Bremmer, um doutorado em ciências políticas da Universidade de Stanford, refere que o índice de estabilidade que a sua consultora usa baseia-se na avaliação da capacidade estrutural dos governos e dos Estados em lidarem com choques, que surgirão inesperadamente, sem pré-aviso. Um outro indicador de estabilidade que esta firma sedeada em Nova Iorque comercializa é elaborado em parceria com o Deusche Bank.

Os media começaram a debater quem será a próxima potência com capacidade militar nuclear.

Mas o que não expõem é o porquê do alargamento da geometria variável do clube. Porque razão o Mundo, esse malandro, se está, uma vez mais, a “vingar” das boas intenções.

Os últimos factos aceleraram o debate: a Coreia do Norte teria realizado testes agora recentemente; a India conseguiu que os Estados Unidos se “acomodassem” ao seu estatuto de potencia militar nuclear (em Julho surgiu o Tratado US-India Civilian Nuclear Co-operation); e há toda esta azáfama em torno do Irão (que, no entanto, ainda estará nos primórdios da cadeia).

O primeiro sinal de que o Clube entrara em período de instabilidade ficou às claras em 1998, quando duas potências regionais fronteiriças fizeram testes de armas nucleares: a Índia (que teria começado a aventura com uma primeira detonação em 1974) e o Paquistão.

O que é que este sinal significava? Que potências fronteiriças entravam na corrida armamentista nuclear como argumento político de “destruição mútua assegurada” (uma ideia que nasceu na Guerra Fria, como pilar da “coexistência pacífica” que então regulava os equilíbrios entre os dois hegemonistas).

O significado político deste passo é simples – a legitimidade deste recurso, que, até então, estava limitado oficialmente aos fundadores do Clube (EUA desde 1945; URSS desde 1949; Reino Unido desde 1952; França desde 1954; China desde 1964) e clandestinamente a Israel (sem data ainda apurada) e à África do Sul no final do regime do apartheid (que teria 6 armas que destruiu quando renunciou ao seu uso).

Fruto deste passado, existirão ainda hoje em seis países “fundadores” umas 13000 armas nucleares. Se adicionarmos os dois vizinhos industânicos, o número subirá ligeiramente.

Apesar do Tratado de Não Proliferação Nuclear ter sido renovado em 1995 (e de contar com 187 signatários; a Coreia do Norte saíu em 2003 do acordo), a implosão da URSS e o paradoxal declínio do hegemonista que restou (os EUA) abriu uma janela de oportunidade para um alargamento da multipolaridade nesta área. Essa é a primeira razão “estrutural”, dificilmente removível. Não há discurso que valha.

Mas a segunda razão política veio deitar mais óleo no lume.

A Administração Bush com a sua teoria da legitimidade do «regime change», do ataque «pre-entivo» e do uso eventual de armas táticas nucleares nessas operações de projecção de força, veio difundir uma doutrina do retorno ao nuclearismo como arma política essêncial. Agora, não num confronto “previsivel”, bipolar, mas num conceito difuso, de facto, de geometria variável.

Os neo-neo-conservadores dos EUA julgaram que com tal contundência, amedrontariam o resto, que não desafiaria o seu hegemonismo, agora que reinaria a solo.

Mas, como sempre, o Mundo vinga-se: o que é valido para os Estados Unidos porque não poderá ser útil para os outros?

Os conflitos regionais fronteiriços por resolver passarão a estar sob a ameaça desta eventualidade dos países em litígio quererem dispôr desta arma de último recurso ou de disuasão.

Não há só graves problemas limitrofes entre India e Paquistão. Há-os no Médio Oriente. Há-os entre Taiwan e a China. Há-os entre as Coreias. Par citar alguns exemplos de antologia. Poderão haver na fronteira euro-asiática, entre países que saíram da URSS e hoje litigam amiúde com a Rússia.

Os países totalitários encurralados (como a ultra-militarista Coreia do Norte) ou as potências regionais que se sintam ameaçadas pelo «regime change» (venha ele de que lado vier) julgam-se com legitimidade para embarcar nesta via.

Finalmente, potências emergentes regionais ou globais que haviam abandonado tais ideias – como o Brasil e a África do Sul – poderão reequacionar o assunto.

Há, neste ponto, uma questão técnica a aclarar: alguns países com a ambiação nuclear não precisam sequer de ter urânio enriquecido para fabricar armas nucleares, bastando-lhes aproveitar o plutónio dos resíduos das suas centrais. O perigo reside, também, em fenómenos como a proliferação, já que bastam 5 kg de plutónio para fabricar uma bomba nuclear com a potência da que foi lançada em Agosto de 1945 na Segunda Guerra Mundial em Nagasáqui, no Japão, alcunhada de “Fat Man”.

 

Uma próxima Administração Norte-americana terá de deitar fora toda essa doutrina “bushevique” (como já a alcunharam). Mas provavelmente já será tarde.

 

O vatícinio não é o melhor: a primeira metade do século XXI vai ter de se acomodar a uma nova corrida nuclear armamentista. Não necessariamente com a dimensão dos anos 1960 a 1980 – em 1986 chegou a dispor-se de mais de 70 mil armas nucleares.

 

O que exigirá de alguns “fundadores” do Clube – os EUA, a China e a Europa – bem como por parte de alguns emergentes – como a Índia -, um novo compromisso capaz de impôr um arrefecimento nas doutrinas da legitimidade do uso político de armas nucleares. Esse é o ponto central, a meu ver.

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A Foreign Policy fez uma lista dos 10 potenciais Estados Nucleares para o século XXI – aproxima-se uma Guerra Fria em geometria variável?

O co-editor deste blogue recomendou um interessante artigo de Robert Kaplan (“When North Korea falls“) na The Atlantic Montlhy (uma vetusta revista com sede nas docas de Boston onde o saudoso Peter Drucker escreveu algumas das suas mais memoráveis peças), edição de Outubro 2006.

Kaplan levanta um véu interessante – o papel da China em toda a questão do regime da Coreia do Norte e o seu interesse estratégico naquela parte norte da Península. Kaplan fá-lo naturalmente de um ponto de vista norte-americano (aconselhando a perceberem-se os cenários possíveis).

É um facto que a Coreia do Norte explora uma janela de oportunidade – ou seja, o facto da China e dos EUA não se terem ainda entendido sobre a questão do futuro desse país. Além, da turbulência geral do mundo, neste período de transição proto-multipolar.

Kim é uma espécie de piolho parasita deambulando num nicho geopolítico.

A solução de uma reunificação não poderá seguir o modelo Alemão do pós-queda Muro de Berlim – como muitos democratas esperam -, e também não é exequível um «regime change» do tipo que o Vietname do Norte conseguiu sobre o Vietname do Sul (com a saída dos norte-americanos) – como continuam a sonhar os herdeiros do defunto sovietismo e os compagnons de route dos regimes totalitários.

Aos interesses estratégicos da China não agrada uma solução de implosão ou derrota do regime de Kim que conduza à ocupação estratégica e cerco à China por parte de uma projecção norte-americana mais para norte na Península. Essa ambição dos neo-neo-cons, quando meteram Kim no “eixo do Mal”, é fortemente contraproducente para as outras potências da Ásia Pacífico. A Ásia não é um Mare Nostrum dos EUA.

Os chineses não estão dispostos a assistir ao que os russos tiveram de engolir depois da implosão da URSS com as projecções de posição dos EUA no eixo de novos países independentes asiáticos e euro-asiáticos da antiga Federação soviética. Não me estou a referir ao que é chamado de ex-Europa de Leste (cuja órbita da União Europeia é o seu raio de sobrevivência estratégica).

Também o Japão quer ter uma palavra a dizer, como se tem visto.

Convém, por isso, reduzir a questão da Coreia do Norte à sua real dimensão.

A Coreia do Norte parece que é militarmente mais capaz do que um Irão ou do que era o Iraque-bluff (que retalhado depois da derrota da Guerra do Golfo e sem quaisquer ditas armas de destruição massiva, era uma presa fácil). Mas convém não exagerar sobre a Coreia do Norte – inclusive não se sabe ao certo o que é bluff, e o que é realidade. Os próprios norte-americanos e sul-coreanos deram explicações contraditórias sucessivas sobre o tipo destes testes. Provavelmente os chineses saberão o que se passou exactamente, mas isso nunca nos dirão, nem mesmo em off the record aqui ao nosso ouvidinho.

A Coreia do Norte não é uma Alemanha nazi e muito menos uma URSS stalinista – estes dois regimes tinham estratégias de grande potência -, apesar de ser um estado totalitário da mais fina espécie (nem Orwell suspeitaria). Também não é uma Sérvia pós-Tito à procura de continuar um projecto de “grande” Sérvia.

Por isso, coloquemos as coisas nas suas devidas proporções. Piolho é piolho, mesmo que maléfico para a saúde.

Colocou-me um leitor a questão de até onde poderiam ir os EUA na sua estratégia de “império”, entendendo por isso a sua projecção global com vista a garantir o seu papel de potência hegemónica.

Alguns autores norte-americanos já colocaram a questão de que há limites, a partir dos quais qualquer império sucumbe ao seu «overstrecht» (sobre-extensão).

Aliás, de um modo pragmático e terra-a-terra, o chefe do Estado Maior das Forças Armadas inglesas já o colocou claramente, ainda que, apenas, se referindo ao caso do Sul do Iraque. No entanto, o Reino Unido é hoje uma pálida imagem do antigo império de Sua Majestade (onde o sol nunca se punha), e tornou-se numa potência declinante “parasita” (no sentido de que parasita os EUA para se manter à tona no jogo mundial). Por isso, dirão, a opinião do homem é irrelevante (apesar do RU manter um grau de operacionalidade geo-militar muito eficaz – que ninguém o despreze). Mas levanta uma questão importante: onde focalizar a projecção de poder; como manter uma “almofada” operacional disponível para um projecção de poder em novos eventos mais graves; como não se deixar consumir em atoleiros.

O problema do «overstrecht» remete para um debate antigo sobre a projecção móvel (de potência global que assenta o seu hegemonismo na mobilidade) e a construção “imperial” em profundidade (em geral uma grande potência quando se mete por estes caminhos é sinal de senilidade no sentido da curva da experiência e do ciclo hegemónico).

A nós portugueses, o problema fateu forte, em tempos idos. O fim do gobalismo português de Quinhentos começou aquando do debate entre Francisco de Almeida (1505) e Afonso de Albuquerque (1509) na Índia. É este último que leva na História o galardão de grande senhor, o senhor que construíu o “Império Português do Oriente”.

Mas era Francisco de Ameida, o primeiro Vice-Rei, que tinha razão – ele advogava a concentração da projecção estratégica no domínio dos mares (o “terreno” fundamental nesta primeira vaga de globalização) e na mobilidade. Afonso de Albuquerque, pelo contrário, acalentava o mito de um vasto império “ultramarino” assente na projecção em profundidade no terreno. E o rei português da altura, Manuel I, foi na conversa de Albuquerque. The rest is history.

Não tardaria que o famoso império português sofresse de «overstretch».

Ter mais olhos do que barriga nunca é bom conselheiro.

O mesmo se passará com os americanos.

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