Acto I: As negociações da reestruturação da dívida grega detida por credores privados – o que é designado pelo acrónimo inglês PSI (para private sector involvement) criado por uma cimeira europeia do ano passado – prosseguem em Atenas durante o fim de semana.
Chegou a esperar-se um anúncio do acordo ainda esta sexta-feira sobretudo depois do encontro já de noite entre o primeiro-ministro Lucas Papademos, o ministro das Finanças Evangelos Venizelos e o diretor do Institute of International Finance (IIF) Charles Dallara, que tem representado os credores privados.
Segundo o jornal grego Kathimerini, há ainda uma divergência sobre a taxa de juro dos novos títulos gregos a emitir para dar em troca dos títulos existentes em mãos dos credores privados e que irão sofrer um “corte de cabelo” (hair cut, na designação técnica) de 50% em termos nominais. Em termos do valor líquido presente dos títulos detidos pelos privados, o corte deverá ficar entre 65% e 70%.
Divergências nos juros
O IIF avançou com uma proposta de um juro médio de 4,25% e não está disposto a ir abaixo de 3,8%, mas o governo grego, diversos países da zona euro – teriam telefonado a pressionar a Alemanha, a Holanda, o Luxemburgo e a Finlândia (os triplo A de notação) – o Fundo Monetário Internacional, e a própria troika, cuja delegação está em Atenas também, insistem num valor mais baixo, entre 3% e 3,5%. O IIF quer ainda que a taxa suba no caso da economia grega crescer; no fundo, um adicional no juro indexado à taxa de crescimento.
O IIF aceita ainda que os novos títulos a dar em troca se dividam em duas componentes: 35% num novo título a 30 anos, com 10 anos de carência em que o governo só pagará juros, e 15% em títulos a 2 anos emitidos pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira, em vez do plano inicial que previa o pagamento em dinheiro dessa parte.
A cimeira europeia que aprovou o segundo pacote de resgate à Grécia colocou como condição que um acordo de re-estruturação da dívida seja alcançado. Tal acordo passou, também, a ser obrigatório para que a Grécia receba nova tranche – uma tranche que está inclusive em atraso – do plano de resgate em curso (de €110 mil milhões, de que faltam entregar €37 mil milhões), que é vital para poder pagar a dívida que vence a 20 de março no valor de €14,5 mil milhões.
Os Números da Dívida Grega
A dívida soberana grega é de €352 mil milhões, ou seja 160% do Produto Interno Bruto (PIB). É uma das mais elevadas do mundo em relação ao PIB, só inferior à do Zimbabwe e do Japão, que têm níveis superiores a 200%. Uma parte dessa dívida grega são empréstimos, no total de €92 mil milhões, dos quais 53 mil milhões por via da União Europeia e 20 mil milhões oriundos do Fundo Monetário Internacional (FMI). Da parte titulada, num total de €260 mil milhões, €55 mil milhões são títulos na posse do banco Central Europeu, e os restantes €205 mil milhões estão em mãos de credores privados, segundo o estudo feito pelo jornal alemão Der Spiegel. O montante representado pelo IIF nestas negociações será de €155 mil milhões.
Ora é sobre a maioria destes 205 mil milhões (ou seja, 58% da dívida soberana total) que incidem as renegociações em curso. A distribuição deste montante é aproximadamente a seguinte: fundos (de investimento, de pensões, soberanos e hedge funds) com €70 mil milhões; bancos gregos com €50 mil milhões; bancos europeus com €40 mil milhões; fundos da segurança social grega com €30 mil milhões; companhias europeias de seguros com €15 mil milhões.
O objetivo da renegociação é conseguir “emagrecer” a dívida grega de 160% do PIB hoje para 120% do PIB em 2020. Para isso, os credores privados deveriam aceitar um “corte de cabelo” no valor líquido presente dos títulos que detém e o resto ser trocado por novos títulos. É a dimensão deste “corte de cabelo” que tem estado em negociação. Começou com o objetivo limitado de 21%.
O valor dos seguros contra o risco de bancarrota – os designados credit default swaps – é apenas de €3,22 mil milhões, em termos nocionais líquidos, algo que não é encarado, no caso de haver um evento de crédito (um default), como podendo ter implicações sistémicas. Mas o risco de contágio existe sempre, dizem os analistas.
Acto II: O chefe da delegação de credores privados, e diretor do Institute of International Finance, abandonou hoje Atenas de regresso a Paris, depois de dois dias de conversações com o governo grego.
Segundo o jornal grego Kathimerini, Charles Dallara irá discutir com os credores que representa a posição final a tomar sobre as posições em confronto na negociação da reestruturação parcial da dívida grega.
O ministro das Finanças grego, Evangelos Venizelos, disse, por seu lado, aos jornalistas em Atenas que as negociações prosseguirão domingo por telefone. O governo grego pretende encerrar o dossiê antes da reunião do Eurogrupo (grupo dos ministros das Finanças da zona euro) na segunda-feira.
Acto III: Para a reunião do Eurogrupo (agrupa os ministros das Finanças da zona euro) de amanhã em Bruxelas não há ainda um documento de acordo entre o governo de Atenas e os representantes dos credores privados da dívida grega.
Segundo o Financial Times (FT), Charles Dallara, o responsável do Institute of International Finance (IIF), que representa os credores privados, terá estado em conversação telefónica, este domingo, com o primeiro-ministro grego Lucas Papademos, mas nenhum acordo terá sido concluído.
Bola no campo do FMI e UE
Dallara disse, no entanto, este domingo, em entrevista ao canal privado grego de televisão Antenna, que se atingiram “os limites de um acordo voluntário”, que foi até ao máximo de cedência onde podia ir, e que as negociações estão numa “encruzilhada”. Adiantou que, agora, “está largamente nas mãos do sector oficial escolher o caminho, um acordo voluntário ou um incumprimento”. Para o jornal grego Kathimerini, Dallara colocou a opção mas mãos da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional, os principais credores públicos da Grécia.
Referiu, contudo, que está confiante que um acordo será feito a tempo de evitar um incumprimento grego a 20 de março, quando vence dívida no valor de €14,5 mil milhões. O chefe do IIF não confirmou quando regressará a Atenas, ou se estará presente na reunião de amanhã do Eurogrupo, em Bruxelas. Fontes oficiais de Atenas garantiram ao jornal britânico que um acordo será alcançado antes da cimeira europeia de 30 de janeiro.
Ver-se-á nos mercados financeiros de amanhã o impacto da não conclusão ainda deste acordo. Ou em que sentido decidirá a reunião do Eurogrupo a partir da tarde de segunda-feira.