O ministro das Finanças nipónico anunciou hoje em Tóquio que, pela primeira vez desde 1980, a terceira maior economia do mundo fechou 2011 com um défice equivalente a cerca de €25 mil milhões.

Os efeitos do tremor de terra e do tsunami sobre a produção, a exportação (automóveis desceram 10,6% e eletrónica 14,2%) e o fornecimento de energia com base no nuclear, bem como a valorização do iene (9,2% em relação ao dólar) e o aumento do preço do petróleo (21,3%) são os responsáveis por este mau resultado. A valorização do iene tem provocado, também, a deslocalização da produção para outros pontos do globo.

Em 1980, o défice comercial japonês atingiu um recorde, até hoje não superado – 2,6 biliões de ienes; em 2011 foi de 2, 49 biliões. Em 2010, o Japão teve um excedente de 6,63 biliões de ienes.

O défice comercial com a China, o principal parceiro comercial, foi 5 vezes superior ao de 2010.

A taxa de juro de referência norte-americana (fed funds rate) fixada pela Reserva Federal (Fed, banco central) deverá manter-se “excecionalmente baixa” inclusive durante 2014.

Ben Bernanke, o presidente da Fed, decidiu estender esta estratégia monetária “altamente acomodativa” para além de meados de 2013, como inicialmente estava previsto. Apesar de reconhecer, na conferência de imprensa que se seguiu à reunião, que a “capacidade [da Fed] para prever a 3 ou 4 anos é obviamente limitada”.

Anunciou a decisão hoje em Washington na sequência da reunião do Federal Open Market Committee. Apenas uma voz se levantou contra a explicitação do período – o presidente do Banco da Reserva Federal de Richmond, Jeffrey Lacker.

QE 3 “em cima da mesa”

A atual taxa de juro de referência situa-se entre 0% e 0,25%, em termos nominais, o que significa que, em termos reais, a taxa é negativa. Ou seja, a Fed empresta dinheiro, perdendo em termos reais, pois a previsão para a inflação ronda os 2%. Bernanke reconheceu, na conferência de imprensa, que esta estratégia de juros nominais próximos de 0% “prejudica os aforradores”.

Bernanke sinaliza aos investidores internacionais que a política de dinheiro barato se manterá num horizonte de quase três anos.

O presidente da Fed admitiu, ainda, que a opção por aquisição de títulos do Tesouro, o que tem sido designado de “alívio quantitativo” (já com dois programas) ou QE, no acrónimo em inglês, “está em cima da mesa”, caso a situação o exija.

Wall Street reagiu positivamente. Os índices Dow Jones e S&P 500 entraram em terreno positivo.

A previsão para o crescimento nos Estados Unidos em 2012 aponta, agora, para um intervalo entre 2,2% e 2,7%, uma ligeira revisão do anterior intervalo que apontava para 2,5%-2,9%.

Vento contrário sopra da Europa

Ben Bernanke, na conferência de imprensa que decorreu depois da reunião da Fed, declarou que tem observado “noticias encorajadoras na economia”, mas que não está preparado “para declarar que já entrámos numa nova fase mais forte”.

A razão principal: o “vento contrário” que sopra da Europa.

Por mais paradoxal que pareça, o país que está à beira de uma bancarrota externa, a Grécia, tinha uma dívida total que era, apenas, 267% do seu produto interno bruto (PIB) em meados do ano passado. O que é quase uma ninharia comparada com 663% do PIB para o caso da Irlanda e 507% para o Reino Unido, segundo uma comparação entre oito países da União Europeia, realizada pelo McKinsey Global Institute (MGI) no seu recente relatório “Debt and deleveraging”, publicado este mês.

A dívida total portuguesa era de 356% do PIB e, neste grupo de oito, ficou em 4º lugar, depois da Irlanda, Reino Unido e Espanha (com 363% do PIB). Em melhor posição do que Portugal, ficaram França (com 346%), Itália (com 314%), Alemanha (com 278%) e Grécia (com 267%).

Por dívida total entende-se a dívida de famílias, empresas, entidades financeiras e governo. Os dados referem-se ao segundo trimestre de 2011 e, no caso português, irlandês e italiano, ao primeiro trimestre do ano passado.

No caso da Grécia, o elo mais fraco da zona euro que conduziu ao trilho da bancarrota externa, é a dívida pública, que representava 132% do PIB, mais do que a italiana que pesava 111% ou a francesa que pesava 90%. Nesta comparação, a dívida pública portuguesa pesava 79%.

Os dois países com a situação mais grave em termos de endividamento das entidades financeiras em relação à riqueza criada no país são a Irlanda e o Reino Unido.

As entidades financeiras irlandesas deviam 259% do PIB e as britânicas 219% do PIB. No caso das portuguesas a dívida é apenas de 55% do PIB. A melhor situação é a grega (7%).

No caso do endividamento das empresas, as duas piores situações são a irlandesa, com 194% do PIB, e a espanhola, com 134%. Nesta divisão do endividamento, Portugal vem logo em terceiro lugar, com a dívida das empresas a pesar 128%. A melhor situação é a alemã (49%).

Finalmente, no campo do endividamento das famílias, a pior situação é, uma vez mais, a irlandesa, com 124% do PIB, logo seguida do Reino Unido, com 98%, e de Portugal, com 94%. As melhores situações são as de Itália (apenas 45% do PIB) e de França (48%), com uma riqueza líquida das famílias sólida a nível europeu.

A título de exemplo, realizando uma comparação com o estudo anterior da consultora (publicado em janeiro de 2010), verificamos movimentos interessantes em três casos simbólicos para os quais há dados comparáveis em dois momentos distintos desta crise em curso. Em Itália o peso do endividamento do governo aumentou dois pontos percentuais do PIB e o das famílias quatro pontos percentuais; nos outros segmentos houve desalavancagem. Em Espanha, apenas aumentou o peso do endividamento do governo, em 15 pontos percentuais do PIB. No Reino Unido, aumentou 22 pontos percentuais do PIB o endividamento do governo e 25 pontos percentuais o endividamento das entidades financeiras.

Em resumo, sobre Portugal, avaliando a relação com a riqueza criada anualmente, nesta amostra de oito países “periféricos” e do “centro” da União Europeia: 4.º na dívida total; 3.º na dívida das empresas; 3º na dívida nas famílias; 7.º na dívida pública; 7.º na dívida das entidades financeiras. Comparativamente, as situações mais graves são ao nível das empresas e das famílias. Deduz-se que são os “segmentos” onde a desalavancagem vai ser mais violenta.

O estudo do MGI pretende avaliar o esforço de desalavancagem da dívida total em dez países do mundo (Japão, com o maior peso da dívida no PIB, neste grupo, Reino Unido, Espanha, França, Itália, Coreia do Sul, Estados Unidos, Alemanha, Austrália e Canadá, por ordem decrescente de peso da dívida no PIB).

A probabilidade de incumprimento da dívida soberana atingiu quarta-feira, no fecho do mercado, 67,05%, um novo máximo. O custo dos seguros contra o risco de default fechou, pela primeira vez, acima dos 1300 pontos base. O que foi noticia mundial em tudo quanto é sítio.

A evolução do risco de incumprimento da dívida soberana ao longo do dia de quarta-feira (25 de janeiro) já apontava para que se atingisse um novo máximo.

No fecho do mercado da dívida, a probabilidade de incumprimento acabou por atingir os 67,05%, segundo dados da CMA DataVision. Na terça-feira havia fechado em 66,78%, o anterior máximo.

O custo dos seguros contra o risco de incumprimento – os designados credit default swaps, cds – da dívida portuguesa a 5 anos ultrapassou, pela primeira vez, ao final da manhã os 1300 pontos base, e acabou por fechar em 1304,86%. Aumentou 21% entre 3 de janeiro e hoje. A ultrapassagem do limiar dos 1300 pontos base foi hoje notícia em todos os principais media financeiros do mundo.

O que este número dos 1300 pontos base significa é que ronda os 1,3 milhões de dólares o prémio anual para segurar, contra um default, dívida soberana portuguesa a 5 anos no valor de 10 milhões de dólares.
Aflição de crédito

Recorde-se que, este mês, a probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa já fixou novos máximos nos dias 16, 18, 19, 24 e 25. O limiar dos 66% foi ultrapassado durante o dia 18 de janeiro e o limiar dos 67% esta quarta-feira (25 de janeiro). No caso grego, o limiar dos 66% e dos 1300 pontos base foi atingido a 18 de abril de 2011.

Neste frenesim de janeiro acumulam-se vários factos – desde o corte de notação da dívida portuguesa para nível especulativo pela Standard & Poor’s, ao recente artigo do Wall Street Journal sobre a probabilidade do Tesouro português não conseguir regressar ao mercado de dívida em 2013, até às próprias palavras do chefe da Confederação da Indústria Portuguesa apontando para a necessidade de um pacote adicional de €30 mil milhões em declarações na quarta-feira à Reuters.

Segundo a agência financeira Markit, em relação à dívida portuguesa há já “vários dealers [deste mercado dos cds] que, em vez [dos pontos base] do spread [como referido acima], estão a cotar [a dívida] em pontos à cabeça (points upfront)”, o que já vem acontecendo com os cds para a dívida grega desde setembro de 2011. Cotar com “pontos à cabeça” implica obrigar a pagamentos à cabeça nos contratos de cds por parte dos compradores deste tipo de seguros financeiros. Esta cotação à cabeça surge quando os spreads credultrapassam limiares muito altos. “O que é um indicador típico de aflição de crédito”, diz a Markit.

O movimento altista de hoje abrangeu, ainda, a Itália, que fechou com um risco de incumprimento de 31,77%, ligeiramente acima do valor de fecho de terça-feira, e Espanha que fechou em 27,88%, também ligeiramente acima do valor do dia anterior.

Depois de uma descida durante a manhã de terça-feira (24 de janeiro), a probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa (risco de default) voltou a subir, tendo fechado em 66,78%, segundo dados da CMA DataVision.

Este valor corresponde a um preço dos credit default swaps (cds, os seguros contra o risco de incumprimento) num valor máximo de 1285,52 pontos base.

O valor de fecho do risco de default na segunda-feira situou-se em 66,41%, tendo o custo dos cds ficado em 1273,14 pontos base.

O país ultrapassou a barreira dos 65% de risco, em valor de fecho do dia, em 18 de janeiro. O anterior máximo, em valor de fecho, foi atingido a 19 de janeiro com 66,62%.

Esta evolução do risco acima de 65% pode indiciar um “trilho” grego, como referimos na semana passada – o risco da dívida grega ultrapassou a barreira dos 65% em meados de abril do ano passado.

No mercado secundário, em relação aos valores de fecho de segunda-feira, as yields (juros) das obrigações do Tesouro desceram no prazo a 10 anos, mas subiram nos prazos a 2, a 3, a 5 e a 6 anos, segundo dados da Bloomberg. Os juros das OT a 10 anos fecharam hoje em 14,19%, abaixo do máximo de 14,62% atingido em 20 de janeiro.

Markit: No mesmo “território” que a Grécia há 8 meses

Para a agência de informação financeira Markit, no seu último relatório do dia, Portugal aproxima-se de novo recorde com 1300 pontos base no preço dos cds.

Segundo comenta a agência, Portugal é “encarado amplamente” como a próxima dívida soberana mais vulnerável a um incumprimento. “Os seus spreads estão hoje no mesmo território que a Grécia estava há oito meses atrás, apesar do pacote de resgate generoso assegurar que [Portugal] tem fundos suficientes para o próximo ano”.

O jornal norte-americano Wall Street Journal especulava hoje sobre a probabilidade de Portugal ter de recorrer a um segundo pacote de resgate. O momento crítico para o financiamento da dívida seria setembro de 2013.

Factores “exógenos” a pesar na marcha portuguesa

Como pano de fundo influenciando negativamente a situação portuguesa registem-se os seguintes factos:

- o impasse nas negociações da reestruturação parcial da dívida grega e a possibilidade da agência Standard & Poor’s declarar essa dívida em situação de default selectivo;

- o agravar das divergências entre a estratégia preconizada pelo Fundo Monetário Internacional (não exagerar nas consolidações orçamentais, reconsiderando o ritmo do ajustamento de curto prazo; sugerir um alívio monetário adicional via Banco Central Europeu; e reforço financeiro urgente dos instrumentos europeus de resgate) e a nebulosa em torno do “compacto orçamental” promovido pela cimeira europeia, que foi considerado hoje pelo ministro dos Negócios Estrangeiros do Luxemburgo em entrevista ao jornal alemão Der Spiegel como “uma perda de tempo e de energia”;

- uma envolvente em 2012 de quase estagnação na zona euro e de recessão em Espanha (ainda o principal mercado de exportação português).

O agravamento das divergências entre o FMI e a Zona Euro ficou transparente na intervenção de ontem de Christine Lagarde, a sua diretora-geral, em Berlim, a que fizemos referência, e nos relatórios do FMI hoje difundidos – World Economic Outlook e Fiscal Monitor.

A Alemanha colocou segunda-feira (23 de janeiro) de manhã dívida no montante de €2,54 mil milhões, com uma procura 2,2 vezes superior ao adjudicado.

Os investidores na dívida alemã compraram os títulos alemães apesar da remuneração ser apenas de 0,07%, quando na operação anterior similar havia sido de 0,346%.

A procura foi, no entanto, inferior à registada na operação anterior, que fora de 4,3 vezes o adjudicado.

Os investidores na dívida alemã, desta vez, aceitaram uma remuneração muito baixa, mas mesmo assim positiva em termos nominais. Recorde-se que a 9 de janeiro deste ano, os investidores aceitaram ser remunerados com uma taxa nominal negativa de -0,0122% num leilão em que o Tesouro alemão arrecadou €3,9 mil milhões em títulos a seis meses.

Os títulos alemães são considerados seguros pelos investidores no mercado da dívida, mesmo que sejam remunerados com taxas negativas em termos reais (se se contar o efeito da inflação, como é o caso de hoje) ou mesmo em termos nominais (como foi o caso do leilão de 9 de janeiro).

No mercado secundário, as yields (juros) dos títulos alemães a 1 ano estavam em 0,098% aquando do leilão.

O Bundesbank admitiu hoje que a Alemanha poderá ter tido uma contração no última trimestre de 2011.

Acto I: Ao final da manhã, e antes do início da reunião do Eurogrupo em Bruxelas, a probabilidade de incumprimento da dívida soberana desceu para Portugal, Irlanda, Itália e Espanha, segundo dados da CMA DataVision.

No caso de Portugal, o risco de default (incumprimento) desceu do máximo atingido na sexta-feira de 66,5% para 66,05% ao final desta manhã.

Em relação ao mercado secundário, as yields (juros) dos títulos soberanos a 10 anos – maturidade de longo prazo, em regra, escolhida para as comparações entre países – estão em baixa para as obrigações do Tesouro português, para os títulos do Tesouro italiano e para as obrigações espanholas, segundo dados da Bloomberg.

No caso dos títulos irlandeses a 9 anos, sofreram um ligeiro aumento. Os títulos irlandeses a 10 anos não têm estado em negociação no mercado secundário desde 11 de outubro do ano passado.

No caso dos juros das OT portuguesas assistiu-se a uma descida do máximo de sexta-feira de 14,62% para 14,25%. O movimento de descida abrange todas as maturidades, incluindo os juros das OT a prazo de 6 anos (que correspondem à média das maturidades da dívida portuguesa), que baixaram de 19,08% para 18,81%.

Observa-se, também, ao final da manhã, a descida dos juros a 10 anos dos títulos belgas e austríacos.

Acto II: Depois dos máximos históricos da semana passada, a probabilidade de incumprimento (default) da dívida portuguesa inverteu a tendência de subida esta segunda-feira. O risco desceu do máximo de 66,50% na sexta-feira para 65,76% a meio da tarde, mas voltou às subidas na ponta final do dia, fechando em 66,41%, segundo dados da CMA DataVision.

O preço dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento) sobre a dívida portuguesa continua acima de 1270 pontos base – o que pode ser comparado com 655,4 pontos base para a Irlanda, ou com 354 pontos base para Espanha ou com 89,12 pontos base para a Alemanha. Em meados de abril de 2011, a Grécia superou os 1200 pontos base.

No mercado secundário, as yields (juros) desceram em todas as maturidades em relação ao fecho de sexta-feira. No caso dos juros das obrigações do Tesouro a 10 anos, a ponta final da tarde assistiu a uma inversão da tendência de descida. Depois de terem descido de um máximo de 14,62% na sexta-feira para 14,19% durante o dia de hoje, os juros voltaram a subir ao final da tarde e fecharam em 14,44%, segundo dados da Bloomberg. Foi um dia com oscilações significativas.

O prémio de risco da dívida portuguesa – que mede a diferença entre os juros dos títulos portugueses e os juros dos títulos alemães (conhecidos por Bunds) – desceu de 12,75 pontos percentuais, um máximo em 18 de janeiro, para 12,47 pontos percentuais no fecho de hoje.

Balanço da União Europeia

A probabilidade de incumprimento desceu hoje para Irlanda, Hungria, Itália, Espanha, Bélgica, França e Áustria em relação aos valores de fecho de sexta-feira. A Itália continua a manter-se abaixo dos 500 pontos base (um limiar crítico) no preço dos credit default swaps (cds).

Apenas a Grécia é exceção no desanuviamento de hoje, com oscilações entre o patamar dos 5000 e dos 6000 pontos base e com níveis de risco variando entre 84% e 85%, consoante os rumores que se espalhavam nos media sobre o andamento da negociação da reestruturação parcial da dívida soberana detida por credores privados (que continua por concluir e estará em apreciação na reunião do Eurogrupo que prossegue). Os rumores de que o Eurogrupo teria rejeitado a proposta dos credores privados da dívida grega surgiram já após o fecho do mercado secundário e do mercado dos cds.

No mercado secundário, os juros dos títulos do Tesouro a 10 anos desceram em Itália, Hungria, Espanha, Bélgica e Áustria, mas subiram nos casos da França e Alemanha, segundo dados da Bloomberg. No caso de Itália, mantêm-se abaixo do limiar crítico dos 7%, tendo hoje fechado em 6,11%. Os juros dos títulos irlandeses a 9 anos – em virtude de os títulos a 10 anos não estarem atualmente em negociação – subiram acima do patamar dos 8%, o que inverte a tendência recente de ir “descendo” progressivamente no patamar dos 7%.

Christine Lagarde (FMI): “Política orçamental não é um jogo de moralismo”

Christine Lagarde, num discurso no Conselho Alemão de Relações Externas em Berlim, criticou esta segunda-feira “uma tendência preocupante em diversos meios – de verem a política orçamental como um jogo de moralismo entre liberalidade e responsabilidade”.

A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) referiu que “o comentário político e de mercado” frequentemente é prisioneiro dessa dicotomia moralista. E critica alguns agentes dos mercados financeiros por “esquizofrenia” neste âmbito: “Os próprios mercados têm sido esquizofrénicos sobre a austeridade – umas vezes premiando-a com juros mais baixos, e noutras alturas ressaltando a desaceleração do crescimento que isso implica e aumentando os juros”.

Como conclusão, a diretora-geral do FMI repete o seu conselho: “medidas credíveis que impliquem e ancorem poupanças no médio prazo ajudarão a criar espaço para acomodação de crescimento hoje (sublinhado de Lagarde) – permitindo um ritmo mais lento da consolidação”.

Momento tipo anos 1930

Lagarde, num discurso que abordou extensivamente a situação na zona euro, considerada o “epicentro” dos problemas, bem como o “resto do mundo”, salientou que estava nas mãos dos políticos evitar “um momento do tipo dos anos 1930″. “O que temos todos de compreender é que este é um momento de definição. Não se trata de salvar este país ou região. Trata-se de salvar o mundo de uma espiral económica descendente”, referiu. “Podemos evitar um tal cenário. Digo-o por uma razão simples: sabemos o que tem de ser feito”, sublinhou ainda. Terminou citando o poeta alemão Goethe: “Não basta saber, tem de se aplicar. Não basta querer, tem de se fazer”.

Num artigo hoje publicado, a hipótese de o Tesouro português não conseguir regressar aos mercados da dívida em 2013 é levantada pelo jornal norte-americano.

O jornal nova-iorquino levanta a questão do financiamento da dívida soberana portuguesa que vencerá em setembro de 2013. Num artigo intitulado “Second Portugal Rescue Seen More Likely“, a probabilidade de um segundo pacote de resgate a Portugal é colocada.

Ainda que “venha longe” tal data, e ainda que o atual plano de resgate cubra as necessidades até ao objetivo de regressar plenamente aos mercados da dívida no próximo ano, Patricia Kowsmann, do Wall Street Journal, adianta que “o Fundo Monetário Internacional (FMI) poderá requerer a Portugal que apresente os seus planos financeiros um ano antes, antes de libertar mais ajuda, tal como o fez com a Grécia”. E, tal como com a Grécia, o FMI poderá exigir uma nova estratégia se se verificar que o Tesouro português não conseguirá regressar ao mercado da dívida daqui a um ano para obter financiamento de longo prazo.
Problemático, diz o IIF

Num relatório sobre Portugal, o Institute of International Finance (IIF, o lóbi que negoceia a reestruturação parcial da dívida grega em nome dos credores privados), refere – segundo o WSJ – que a previsão do atual Memorando de Entendimento de que o Tesouro português regressará à emissão de dívida a longo prazo em 2013 “também parece problemática”. “Com as yields dos títulos soberanos portugueses ainda acima de 12%, apesar de algumas descidas recentes, o pressuposto parece pouco provável de se concretizar, mesmo se os objetivos do défice orçamental sejam alcançados”.

As oscilações das yields (juros) no mercado secundário, tendo inclusive na semana passada marcado máximos históricos para os prazos a 10 anos, como então indicámos, poderão ser um indicador dessas dificuldades futuras. Na realidade, as yields encontram-se ainda acima de 14% nas maturidades a 2, a 3, a 5, a 6 e a 10 anos, variando entre 14,23% (no prazo a 10 anos) e 18,74% no prazo a 6 anos (que representa a média atual das maturidades da dívida portuguesa).

Acto I: As negociações da reestruturação da dívida grega detida por credores privados – o que é designado pelo acrónimo inglês PSI (para private sector involvement) criado por uma cimeira europeia do ano passado – prosseguem em Atenas durante o fim de semana.

Chegou a esperar-se um anúncio do acordo ainda esta sexta-feira sobretudo depois do encontro já de noite entre o primeiro-ministro Lucas Papademos, o ministro das Finanças Evangelos Venizelos e o diretor do Institute of International Finance (IIF) Charles Dallara, que tem representado os credores privados.

Segundo o jornal grego Kathimerini, há ainda uma divergência sobre a taxa de juro dos novos títulos gregos a emitir para dar em troca dos títulos existentes em mãos dos credores privados e que irão sofrer um “corte de cabelo” (hair cut, na designação técnica) de 50% em termos nominais. Em termos do valor líquido presente dos títulos detidos pelos privados, o corte deverá ficar entre 65% e 70%.
Divergências nos juros

O IIF avançou com uma proposta de um juro médio de 4,25% e não está disposto a ir abaixo de 3,8%, mas o governo grego, diversos países da zona euro – teriam telefonado a pressionar a Alemanha, a Holanda, o Luxemburgo e a Finlândia (os triplo A de notação) – o Fundo Monetário Internacional, e a própria troika, cuja delegação está em Atenas também, insistem num valor mais baixo, entre 3% e 3,5%. O IIF quer ainda que a taxa suba no caso da economia grega crescer; no fundo, um adicional no juro indexado à taxa de crescimento.

O IIF aceita ainda que os novos títulos a dar em troca se dividam em duas componentes: 35% num novo título a 30 anos, com 10 anos de carência em que o governo só pagará juros, e 15% em títulos a 2 anos emitidos pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira, em vez do plano inicial que previa o pagamento em dinheiro dessa parte.

A cimeira europeia que aprovou o segundo pacote de resgate à Grécia colocou como condição que um acordo de re-estruturação da dívida seja alcançado. Tal acordo passou, também, a ser obrigatório para que a Grécia receba nova tranche – uma tranche que está inclusive em atraso – do plano de resgate em curso (de €110 mil milhões, de que faltam entregar €37 mil milhões), que é vital para poder pagar a dívida que vence a 20 de março no valor de €14,5 mil milhões.

Os Números da Dívida Grega

A dívida soberana grega é de €352 mil milhões, ou seja 160% do Produto Interno Bruto (PIB). É uma das mais elevadas do mundo em relação ao PIB, só inferior à do Zimbabwe e do Japão, que têm níveis superiores a 200%. Uma parte dessa dívida grega são empréstimos, no total de €92 mil milhões, dos quais 53 mil milhões por via da União Europeia e 20 mil milhões oriundos do Fundo Monetário Internacional (FMI). Da parte titulada, num total de €260 mil milhões, €55 mil milhões são títulos na posse do banco Central Europeu, e os restantes €205 mil milhões estão em mãos de credores privados, segundo o estudo feito pelo jornal alemão Der Spiegel. O montante representado pelo IIF nestas negociações será de €155 mil milhões.

Ora é sobre a maioria destes 205 mil milhões (ou seja, 58% da dívida soberana total) que incidem as renegociações em curso. A distribuição deste montante é aproximadamente a seguinte: fundos (de investimento, de pensões, soberanos e hedge funds) com €70 mil milhões; bancos gregos com €50 mil milhões; bancos europeus com €40 mil milhões; fundos da segurança social grega com €30 mil milhões; companhias europeias de seguros com €15 mil milhões.

O objetivo da renegociação é conseguir “emagrecer” a dívida grega de 160% do PIB hoje para 120% do PIB em 2020. Para isso, os credores privados deveriam aceitar um “corte de cabelo” no valor líquido presente dos títulos que detém e o resto ser trocado por novos títulos. É a dimensão deste “corte de cabelo” que tem estado em negociação. Começou com o objetivo limitado de 21%.

O valor dos seguros contra o risco de bancarrota – os designados credit default swaps – é apenas de €3,22 mil milhões, em termos nocionais líquidos, algo que não é encarado, no caso de haver um evento de crédito (um default), como podendo ter implicações sistémicas. Mas o risco de contágio existe sempre, dizem os analistas.

Acto II: O chefe da delegação de credores privados, e diretor do Institute of International Finance, abandonou hoje Atenas de regresso a Paris, depois de dois dias de conversações com o governo grego.

Segundo o jornal grego Kathimerini, Charles Dallara irá discutir com os credores que representa a posição final a tomar sobre as posições em confronto na negociação da reestruturação parcial da dívida grega.

O ministro das Finanças grego, Evangelos Venizelos, disse, por seu lado, aos jornalistas em Atenas que as negociações prosseguirão domingo por telefone. O governo grego pretende encerrar o dossiê antes da reunião do Eurogrupo (grupo dos ministros das Finanças da zona euro) na segunda-feira.

Acto III: Para a reunião do Eurogrupo (agrupa os ministros das Finanças da zona euro) de amanhã em Bruxelas não há ainda um documento de acordo entre o governo de Atenas e os representantes dos credores privados da dívida grega.

Segundo o Financial Times (FT), Charles Dallara, o responsável do Institute of International Finance (IIF), que representa os credores privados, terá estado em conversação telefónica, este domingo, com o primeiro-ministro grego Lucas Papademos, mas nenhum acordo terá sido concluído.
Bola no campo do FMI e UE

Dallara disse, no entanto, este domingo, em entrevista ao canal privado grego de televisão Antenna, que se atingiram “os limites de um acordo voluntário”, que foi até ao máximo de cedência onde podia ir, e que as negociações estão numa “encruzilhada”. Adiantou que, agora, “está largamente nas mãos do sector oficial escolher o caminho, um acordo voluntário ou um incumprimento”. Para o jornal grego Kathimerini, Dallara colocou a opção mas mãos da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional, os principais credores públicos da Grécia.

Referiu, contudo, que está confiante que um acordo será feito a tempo de evitar um incumprimento grego a 20 de março, quando vence dívida no valor de €14,5 mil milhões. O chefe do IIF não confirmou quando regressará a Atenas, ou se estará presente na reunião de amanhã do Eurogrupo, em Bruxelas. Fontes oficiais de Atenas garantiram ao jornal britânico que um acordo será alcançado antes da cimeira europeia de 30 de janeiro.

Ver-se-á nos mercados financeiros de amanhã o impacto da não conclusão ainda deste acordo. Ou em que sentido decidirá a reunião do Eurogrupo a partir da tarde de segunda-feira.

As yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) português no mercado secundário da dívida voltaram a fixar novo máximo no prazo a 10 anos na sexta-feira. O juros destas OT fecharam em 14,62%, um valor ligeiramente acima do fecho de quinta-feira (14,58%), segundo dados da Bloomberg. Trata-se de um novo máximo desde a adesão ao euro.

Os juros das OT a 5 anos fecharam em alta, mas os juros das OT a 2 e a 3 anos desceram em relação aos valores do dia anterior. Os juros das OT a 6 anos, que chegaram a estar em novo máximo (19,14%) durante o dia, acabaram por descer ligeiramente, e fechar em 19,08%. Os juros a 6 anos têm importância em ser seguidos, na medida em que a média de maturidades da dívida portuguesa se situa nesse número de anos.

Por outro lado, a probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa fechou na sexta-feira em 66,50%, ligeiramente abaixo do máximo atingido na quinta-feira, segundo dados da CMA DataVision. O risco de default português é o segundo mais elevado, depois da Grécia, entre as 80 dívidas soberanas monitorizadas pela CMA DataVision.

Foi mais um dia histórico. As yields (juros) das obrigações do Tesouro português a 10 anos fecharam em 14,58% no mercado secundário, um novo máximo, desde a adesão ao euro, segundo dados da Bloomberg. Na quarta-feira haviam fechado em 14,54%.

Também a probabilidade de incumprimento (default) da dívida soberana prosseguiu a tendência de subida. Um novo máximo foi fixado com o risco de default a atingir 66,62%, segundo dados da CMA DataVision. Na quarta-feira havia fechado em 66,35%.

Os analistas referem que o desenrolar do processo de renegociação parcial da dívida grega estará a afetar a perceção que os investidores têm do que poderá acontecer em outros países da zona euro já com planos de resgate, nomeadamente com Portugal que, desde há muito, tem riscos elevados de incumprimento.

Antes das subidas desta semana, o anterior máximo estava em 64,78% atingido em 18 de julho de 2011.

O afastamento entre Portugal e a Irlanda é, por outro lado, cada vez maior. O risco de incumprimento da dívida irlandesa está em 43,71%. Há um mês estava em 46,51%. No caso português, o risco há um mês situava-se em 61,26%.

Com níveis acima de 65%, Portugal poderá entrar no “trilho grego”, se a percepção dos investidores nestes mercados da dívida não se alterar. A Grécia atingiu os 65% de risco em meados de abril de 2011, com níveis de juros dos títulos a 10 anos na ordem dos 14%. Até final de abril atingiria os 68% de risco e juros da dívida a 10 anos na ordem dos 16%. A 24 de maio do mesmo ano ultrapassaria a barreira dos 70%. Em julho de 2011, a cimeira europeia decidiu avançar com um segundo pacote de resgate a Atenas.

Página Seguinte »