Acto I — 29 de abril — Juros da dívida alemã e francesa em mínimos do ano. Uma trajetória de descida em todos os países “periféricos” da zona euro e também na Alemanha e França. Itália coloca €6 mil milhões de dívida de longo prazo a taxas mais baixas
A zona euro continua a observar uma trajetória descendente nas yields das obrigações no mercado secundário, incluindo as yields das obrigações do Tesouro (OT) português a 10 anos que fecharam em 5,83%, ligeiramente abaixo do valor de fecho de sexta-feira (5,86%) e de há uma semana (5,88%). Trata-se de um valor próximo de 5,82% atingido em 23 de janeiro quando a Agência de Gestão da Dívida e da Tesouraria Pública (IGCP) regressou aos mercados obrigacionistas com uma emissão a cinco anos, a primeira vez desde o resgate pela troika em 2011. O valor mais baixo do ano foi atingido a 23 de abril, na semana passada, com 5,74%.
Os analistas apontam como fatores de acalmia dos mercados da dívida pública o efeito da estabilização política em Itália e a expetativa em relação à próxima reunião do conselho de governadores do Banco Central Europeu na próxima quinta-feira, onde muitos analistas prevêem um corte na taxa de juro de referência de 0,75% para 0,5%. Há condições favoráveis para um regresso do IGCP ao mercado obrigacionista com uma colocação de dívida de 2 mil milhões de euros a 10 anos, dependendo do momento mais oportuno, que poderá não esperar pela reunião do conselho europeu de 22 de maio.
A marcar o dia três factos – na Alemanha, França e Itália.
As yields das obrigações alemãs, designadas por Bunds, atingiram o valor mais baixo desde 20 de julho de 2012 na maturidade a 10 anos (quando fecharam em 1,167%) e as yields das obrigações francesas (acrónimo OAT) fixaram novo mínimo histórico no mesmo prazo. As yields dos Bunds a 10 anos fecharam em 1,2%, abaixo do anterior mínimo deste ano em 1,21% em 5 de abril. As yields das OAT a 10 anos fecharam em 1,74%, novo mínimo histórico desde a adesão ao euro abaixo de 1,751% a 8 de abril.
O dia foi, também, marcado por um leilão de dívida organizado pelo Departamento do Tesouro italiano que colocou 6 mil milhões de euros em obrigações a 5 e a 10 anos com taxas médias de remuneração mais baixas do que nas anteriores emissões similares. O Tesouro italiano colocou 3 mil milhões de euros a 5 anos com taxas médias de remuneração de 2,84% contra 3,65% na emissão similar anterior e outros 3 mil milhões de euros a 10 anos com taxas de 3,94% contra 4,66% na emissão similar anterior. A procura total nas duas operações foi de 8,3 mil milhões.
Foi o primeiro leilão realizado depois da tomada de posse do novo governo italiano de coligação muito ampla chefiado por Enrico Letta que tem como ministro das Finanças o anterior diretor-geral do Banco de Itália – o banco central – Fabrizio Saccomanni. É a primeira coligação abrangendo esquerda e direita desde 1946. Letta criticou a austeridade como estratégia e afirmou que se demite se não conseguir obter os objetivos do governo até daqui a 18 meses. Alguns analistas internacionais duvidam da sinceridade de Letta sobre a inversão da política de austeridade. O novo primeiro-ministro identificou três problemas prioritários: travar o pagamento em junho do IMU – Imposto Municipal Único sobre imóveis de primeira residência (mas não se decidiu pela sua eliminação); atrasar a subida do IVA de 21% para 22%; acabar com o financiamento público das campanhas eleitorais dos partidos.
Letta ganhou um voto de confiança no Parlamento por 453 votos contra 150. O efeito no mercado secundário levou a que as yields das obrigações italianas (BTP) a 10 anos fechassem em 3,91%, o valor mais baixo desde 27 de outubro de 2010. Um dos objetivos do novo governo italiano é que o prémio de risco da dívida italiana – o diferencial entre as yields das BTP e dos Bunds no prazo a 10 anos – desça para apenas 1 ponto percentual, estando atualmente em 2,7 pontos percentuais.(A título comparativo, o prémio de risco para Portugal está em 4,62 pontos percentuais e para Espanha em 2,95).
As yields das obrigações a 10 anos dos restantes países “periféricos” estão também em trajetória descendente no mercado secundário.
A hierarquia descendente de níveis de yields das obrigações dos periféricos no prazo a 10 anos é a seguinte: 11,19% para a Grécia; 5,9% para a Eslovénia; 5,83% para Portugal; 4,16% para Espanha; 3,91% para Itália; e 3,61% para Irlanda, que apesar de estar ainda intervencionada pela troika tem atualmente os juros mais baixos. Os dados foram recolhidos na Bloomberg, Datosmacro e Investing.com.
Acto II — 30 de abril — Juros da dívida portuguesa em novo mínimo do ano. Os juros das obrigações do Tesouro cairam no mercado secundário para 5,71%, o nível mais baixo este ano. Também os juros das obrigações francesas fixaram novo mínimo histórico desde a adesão ao euro.
As yields das obrigações do Tesouro (OT) português a 10 anos fecharam no mercado secundário em 5,71%, o nível mais baixo este ano. Em 23 de abril haviam caído para 5,74%. Estes valores são próximos dos verificados no início de outubro de 2010. A trajetória de descida prossegue. Estes valores de fecho estão abaixo dos 5,82% verificados a 23 de janeiro aquando do regresso aos mercados obrigacionistas com uma emissão de obrigações a cinco anos.
O dia de hoje foi, também, marcado por um novo mínimo histórico desde a adesão ao euro das yields das obrigações francesas a 10 anos que fecharam em 1,71%, abaixo do anterior mínimo ocorrido ontem quando fecharam em 1,74%.
Continuou a observar-se uma trajetória descendente das yields de todos os “periféricos” da zona euro no mercado secundário.
Por ordem descendente, os valores de fecho das yields das obrigações a 10 anos foram os seguintes: 11,02% para Grécia; 5,87% para Eslovénia; 5,71% para Portugal; 4,14% para Espanha; 3,89% para Itália; 3,57% para Irlanda.
Os mercados esperam as decisões da reunião mensal do conselho de governadores do Banco Central Europeu que decorrerá na próxima quinta-feira em Bratislava, na capital da Eslováquia. Muitos analistas prevêem uma redução das taxas de juro.
Balanço do mês de abril: trajetória descendente
As yields das obrigações soberanas a 10 anos dos países “periféricos” da zona euro desceram no mercado secundário entre 29 de março (no caso da Grécia, o último dia de negociação foi 28 de março) e 30 de abril.
A descida mais acentuada naquele período ocorreu com a Grécia: as yields desceram de 12,44% para 11,02%, mais de um ponto percentual. A seguir, desceram as yields das obrigações espanholas e italianas. O caso português ficou em quarto lugar, com uma descida de 6,37% para 5,71% no período referido, logo seguido da Irlanda. A descida menos significativa ocorreu com as yields das obrigações eslovenas, que apenas cairam de 6.06% para 5,87%.
“A grande história do mês e a de maior impacto é a corrida verificada no mercado da dívida. A sublinhar a queda nas yields das obrigações epanholas, italianas e portuguesas. Estes níveis das yields estão praticamente próximos de mínimos de há três anos”, diz-nos o analista Marc Chandler, de Nova Iorque.
Os dados foram recolhidos na Bloomberg, Datosmacro e Investing.com.
Acto III — 1 de maio — Eslovénia suspendeu emissão de dívida de longo prazo. A decisão foi tomada ainda antes da agência Moody’s cortar a notação da dívida de longo prazo do país para nível especulativo (vulgo “lixo financeiro”).
O recém-formado governo de Liubliana chefiado pela primeiro-ministro Alenka Bratusek adiou uma emissão de dívida de 3 mil milhões de dólares (obrigações denominadas em dólares, apesar do país ser membro da zona euro) a cinco e a dez anos. A decisão foi tomada ainda antes da agência de notação Moody’s ter cortado ontem à tarde o rating da dívida de longo prazo eslovena, quer em moeda local (euro) quer em moeda estrangeira, para Ba1, o primeiro nível de dívida especulativa, vulgo “lixo financeiro”, e com perspetiva negativa, o que prenuncia a possibilidade de novo corte. O Tesouro esloveno deverá, no entanto, retomar a emissão nos próximos dias, segundo a agência Markit.
A Moody’s decidiu o corte de notação em virtude da situação de crise bancária no país. A Eslovénia tem, agora, uma notação similar à da Irlanda e dois níveis acima da portuguesa, que está em Ba3. No entanto, as duas outras principais agências de notação, a Standard & Poor’s e a Ficth manteem o rating da Eslovénia em A-, quatro níveis acima da atual situação de “lixo financeiro” atribuída pela Moody’s.
Crise bancária no centro da turbulência
Para enfrentar a crise bancária, o novo governo com apenas seis semanas de vida, deverá apresentar um plano à Comissão Europeia a 9 de maio. A recém-eleita Alenka Bratusek afirmou que a recapitalização da banca era “a prioridade número um”. As estimativas do novo governo apontam para uma injeção de 900 milhões de euros a mil milhões ainda durante este semestre para sanear os três maiores bancos públicos do país. Um banco para o lixo tóxico (bad bank, na gíria dos resgates do sector bancário) foi criado, o Bank Asset Management Company. Segundo estimativas do governo, há cerca de 7 mil milhões de euros em empréstimos de duvidosa cobrança concedidos pela banca a empresas e famílias. Cerca de 4 mil milhões de euros poderão ser “deslocados” para o bad bank. Os fundos de recapitalização poderão ser obtidos com a privatização de um banco e de outros ativos do Estado.
Tem-se referido que a Eslovénia poderá ser o próximo membro da zona euro a ser resgatado pela troika. O país aderiu à zona euro em janeiro de 2007. No entanto, o nível de dívida pública subiu de 46,9% do PIB em 2011 para 52,6% no ano seguinte e o défice público verificado em 2012 foi de 4% do PIB, tendo baixado de um nível de 6,4% em 2011. Para 2013, a previsão é que o défice suba para 5,1% do PIB. Depois da recapitalização bancária, a dívida poderá subir para 75% do PIB, mesmo assim distante dos 90,6% de média na zona euro. A situação económica está marcada por uma recessão, com uma contração de 2,3% do PIB no ano passado, e o Banco central do país (Banka Slovenije) alertou que este ano poderá haver uma contração adicional de 1,9%.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) na sua avaliação da situação, depois de uma missão que terminou a 18 de março, referiu que o país poderá necessitar de 3 mil milhões de euros de financiamento até final do ano, sem contar com eventuais necessidades adicionais por parte da recapitalização bancária, pelo que manter a capacidade de ir ao mercado primário colocar dívida a juros comportáveis tornou-se crítica. “Apesar de sucessos recentes, o custo de financiamento da dívida soberana permanece elevado e sensível à confiança do mercado financeiro. A vulnerabilidade da Eslovénia a choques externos, como os que resultaram da crise de Chipre, pode dificultar o financiamento da dívida com juros sustentáveis, o que aumenta a probabilidade das autoridades virem a ter necessidade de solicitar um programa de assistência externa”, sublinhou a Moody’s.
Juros abaixo da linha vermelha dos 7%
As yields das obrigações eslovenas (denominadas em dólares) a 10 anos no mercado secundário desceram entre 29 de março e 30 de abril, de 6,06% para 5,87%, segundo dados da investing.com. A 16 de abril fecharam perto de 7%, o limiar vermelho, e no dia seguinte atingiram um máximo intradiário de 7.05%.
A 20 de abril, a diretora-geral do FMI aconselhou a que não se dessem ouvidos aos rumores sobre o resgate iminente da Eslovénia. “Eu não confiaria nos rumores, na trepidação, venha ela dos media, dos mercados ou por outra via”, disse Christine Lagarde, na sequência da reunião da primavera do FMI em Washington DC. Uma colocação de bilhetes de Tesouro a 18 meses também correu bem em meados de abril com a emissão de 1,1 mil milhões de euros, arrecadando o dobro do previsto. O governo realizou, entretanto, uma série de road shows junto de investidores nos Estados Unidos e em Londres como preparação para a emissão de longo prazo que foi ontem suspensa.
A especulação abrandou, mas os rumores não morreram. Hoje, as yields fecharam em 5,95%, invertendo a trajetória descendente que se vinha verificando.
Dados sobre a Eslovénia (2012): População de 2 milhões de habitantes; PIB (preços correntes) em €35,47 mil milhões (21,5% do PIB português); PIB per capita (a preços correntes) de 17.254 euros anuais (110% do PIB per capita português); desemprego de 9%(compara com 15,6% em Portugal); dívida pública (bruta) em % do PIB em 54,1% (contra 123,6% para Portugal); défice público em % do PIB: 4% (contra 6,4% para Portugal); Excedente externo em % do PIB: 2,3% (contra défice externo de 1,5% para Portugal). Fonte: Eurostat; FMI, DataMapper.
Comparação rápida Eslovénia/Portugal: nível de vida mais elevado em 10%; situação externa positiva; e indicadores financeiros do Estado mais favoráveis (rácios de dívida e défice face ao PIB).
Acto IV — Novos mínimos do ano para juros de Portugal, Alemanha e França. Os juros das Obrigações do Tesouro a dez anos fecharam em 5,66%, um novo mínimo do ano. Os juros dos Bunds recuaram para o mais baixo valor desde o pico de crise financeira em 2008.
A trajetória descendente continua no mercado secundário com as yields das Obrigações do Tesouro (OT) português no prazo a dez anos a fixarem novo mínimo do ano em 5,66%. Ontem haviam fechado em 5,72% e no dia 30 de março fecharam em 5,71%, o anterior mínimo do ano. As yields das OT estão, agora ao nível das verificadas em outubro de 2010.
Na descida geral de yields das obrigações dos membros da zona euro no mercado secundário destaque-se hoje o que ocorreu com a dívida da Alemanha e da França. As yields dos Bunds, designação das obrigações alemãs, e das obrigações francesas no prazo a 10 anos marcaram novos mínimos do ano.
A decisão do Banco Central Europeu (BCE) de baixar a taxa de juro de referência para 0,5% – o que era esperado pelo consenso dos analistas e já antecipado pelos próprios investidores no mercado – e de admitir novas medidas anti-crise futuramente em caso de necessidade reforçou o clima favorável no mercado da dívida. A baixa da taxa de referência permite aos bancos do sistema do euro financiarem-se
no BCE a juro negativo em termos reais, aumentarem as suas margens de intermediação e acorrerem às colocações de dívida soberana, arrecadando ganhos com o diferencial nos juros.
As yields dos Bunds fecharam hoje em 1,17%, novo mínimo do ano, e um valor similar ao verificado a 20 de julho de 2012. Este nível de 1,17%, que, agora, se repete em 2013, é o valor mais baixo desde o pico da crise financeira no final de 2008 quando as yields da dívida alemã a 10 anos atingiram 4,5%. Este nível de 1,17% nas yields é já inferior à taxa de inflação da zona euro que baixou para 1,2% em abril, o nível mais baixo desde fevereiro de 2010.
França coloca quatro mil milhões pagando taxa em mínimo histórico
No caso das yields das obrigações francesas a 10 anos, fixou-se hoje um novo mínimo histórico em 1,66%, Ontem haviam fechado em 1,71%, o anterior mínimo, o mesmo valor de fecho a 30 de abril.
Este nível de financiamento da dívida francesa muito baixo no mercado secundário reflete um ambiente muito favorável, que permitiu, uma vez mais, à Agência do Tesouro francesa colocar no mercado primário divida de longo prazo com taxas médias de remuneração muito baixas, pouco acima da inflação. O Tesouro francês colocou hoje quatro mil milhões de euros em obrigações a dez anos, tendo pago uma taxa média de remuneração de 1,81%, a mais baixa desde a adesão ao euro, inferior a 1,94% na operação similar anterior em abril.
Apesar da descida das yields das obrigações soberanas dos países periféricos a assimetria nas condições de financiamento continua a consolidar-se na zona euro, com a Alemanha e a França a conseguirem financiar o seu endividamento a 10 anos a taxas inferiores a 2%.
Eslovénia coloca emissão em dólares e salva o ano
Ao final da tarde, o Tesouro esloveno colocou no mercado primário uma emissão de dívida a cinco e a dez anos que havia sido suspensa na terça-feira antes da decisão da Moody’s de cortar para o nível especulativo a dívida de longo prazo do país. A dívida colocada somou 3,5 mil milhões de dólares (o equivalente a cerca de 2,6 mil milhões de euros) – a emissão foi de obrigações denominadas em dólares -, tendo havido uma procura de 16 mil milhões.
Os investidores compraram dívida eslovena apesar do corte de rating pela Moody’s, a única das três principais agências de notação que considera a dívida eslovena “lixo financeiro”. Os analistas salientam que há uma fome por obrigações por parte dos investidores que adoptaram uma posição contrária à notação da Moody’s. A colocação de dívida foi operada pelo Deutsche Bank, BNP Paribas e JPMorgan , que lançaram a emissão a 5 anos com uma yield de 4.95% e a emissão a dez anos com uma yield de 6%.
Como sublinhou o jornal “Financial Times”, com esta operação de dívida que se sucedeu a uma emissão de bilhetes do Tesouro em abril num montante de 1,1 mil milhões de euros, a Eslovénia conseguiu financiar as suas necessidades para este ano estimadas pelo Fundo Monetário Internacional em 3,2 mil milhões de euros (se se excluirem as necessidades de recapitalização da banca), o que a poupa à necessidade de um resgate global por ora. O problema crítico centra-se na questão da reestruturação do sector bancário.
A hierarquia descendente de níveis de yields das obrigações soberanas a 10 anos é a seguinte entre os países “periféricos” do euro: 10,28% para a Grécia; 5,92% para Eslovénia; 5,66% para Portugal; 4,04% para Espanha; 3,76% para Itália; e 3,5% para a Irlanda. Os dados referidos são da Bloomberg, datosmacro e investing.com para valores de fecho.