O grupo dos sete grandes do mundo “desenvolvido”, o G7 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá) deu um ar da sua graça e parece querer continuar a agir em conjunto. Reunidos este fim-de-semana na cidadezinha de Iqaluit, perto do círculo árctico, os sete ministros resolveram deixar três recados, apesar de não ter havido um comunicado final formal. Os recados foram transmitidos por declarações públicas diversas.

Cuidado com o double-dip

O primeiro diz respeito à Grande Recessão iniciada em 2007. Apesar do foco actual se ter virado, abruptamente, para a consolidação orçamental necessária face ao agravamento da percepção de risco de incumprimento de muitas dívidas soberanas, os ministros, reunidos informalmente à lareira, avisaram que é necessário prosseguir os planos anticrise, que o risco de um double-dip, de uma recaída, deve ser evitado.

O secretário do Tesouro americano, Tim Geithner, foi claro: “Devemos assegurar que não colocamos em causa a retoma económica mundial”. O que exige um equilíbrio, difícil, entre as estratégias de consolidação orçamental de médio prazo (em muitos casos já iniciadas, como na Grécia e Irlanda, e proposta, também, para Portugal, na sua proposta de Orçamento de Estado para 2010) e as intervenções na economia real.

Não ao FMI

O segundo recado foi dirigido aos especuladores, ultimamente muito activos em torno do problema grego e dos restantes membros do Clube dos PIIGS (acrónimo pejorativo para Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha). O problema grego deverá ser “gerido pela União Europeia, e não pelo G7”, insistiu o ministro das Finanças do Canadá, Jim Flaherty. Por seu lado, o presidente do Eurogrupo desmentiu formalmente que a Grécia vá fazer apelo à intervenção do Fundo Monetário Internacional, como foi sugerido politicamente pelo Financial Times e pelo The Economist neste fim-de-semana.

A ideia transmitida a partir da lareira canadiana é que será um problema a ser resolvido dentro da União Europeia. Espera-se que, na cimeira informal da próxima quinta-feira (11 de Fevereiro, em Bruxelas, o problema seja debatido. Aumenta uma corrente defensora do avanço para uma iniciativa de lançamento de eurobonds.

Recado à alta finança

Finalmente, o terceiro recado vai directo à alta finança. O G7 vai prosseguir na preparação de uma intervenção conjunta em direcção ao sistema financeiro, apesar da forte oposição destes meios que ficou patente em Davos, no World Economic Forum, e diariamente nas intervenções dos banqueiros um pouco por todo o mundo ocidental.

Duas linhas de intervenção estão em observação pelo G7. Uma foi seguida já pelo Reino Unido e por França no sentido de tributar extraordinariamente os bónus ou outras remunerações variáveis acima de um determinado valor (27.500 euros) dos gestores financeiros, e é o caminho proposto, também, no Orçamento de Estado para 2010 pelo governo português. Outra, foi avançada nos Estados Unidos e pretende aplicar ao núcleo duro do sistema bancário uma taxa a partir de meados deste ano para criar um fundo especial – foi o caso da iniciativa Obama (Financial Crisis Responsability Fee) que se estenderá por dez anos.

Onde parece haver consenso é em matéria de novas regras prudenciais para a banca, esperando-se até ao fim deste ano uma proposta do G7.

Os credit default swaps (CDS) para a dívida soberana da República Portuguesa fecharam hoje nos 245,03 pontos base (pb), mais 8% do que na sexta-feira passada e 180% de aumento em relação a Dezembro do ano passado. O risco de incumprimento da dívida soberana portuguesa subiu para 18,9%. Similar ao da Lituânia, mas ainda muito abaixo dos 30% da Grécia.

O valor de fecho de hoje marcou um novo máximo histórico, tendo ultrapassado o máximo atingido na quinta-feira negra de 4 de Fevereiro, em que, a par do disparo dos CDS, assistimos, também, ao crash da Bolsa de Lisboa com o PSI20 a cair quase 5%, em linha de contágio com a queda em Madrid de quase 6%, por efeito das declarações do comissário europeu Joaquín Almunia e da continuação do ataque dos hedge funds à Zona Euro.

Apesar das declarações emitidas repetidamente em Portugal pelo Presidente da República e da entrevista dada pelo ministro das Finanças Teixeira dos Santos à CNN, a acalmia observada na sexta-feira foi sol de pouca dura.

Um indicador da consultora CMA sobre o “ruído” das citações relativas a Portugal desde 1 de Fevereiro revela que o nosso país leva a dianteira, se excluirmos o caso grego que tem feito as manchetes por todo o lado: 7715 contra 7417 sobre Espanha, 7063 sobre Itália e 6038 sobre a Irlanda. A imagem de Portugal está severamente machucada. Segundo David Kotok, presidente da Cumberland Advisors, uma consultora de investimentos que gere um portfólio de clientes à escala mundial, por duas razões recentes: as constantes notícias sobre instabilidade política em Portugal e o mau sinal dado pelo falhanço no leilão recente de lançamento de bilhetes do tesouro.

No caso grego, o Nobel Joseph Stiglitz, que é conselheiro do governo grego, reagiu contra a análise feita pelos mercados financeiros, mas a Grécia continua a estar classificada no clube dos 10 de maior risco (8º lugar, entre o Dubai e a Letónia) e a bolsa grega continua a viver em clima de crash.

Estes factos são interpretados no quadro geral de ataque aos pontos fracos da Zona Euro, identificados como estando no Clube Med (Portugal, Espanha, Itália e Grécia) e na Irlanda, a que se adiciona a situação de degradação bolsista na periferia de leste da União Europeia.

As situações da Grécia e da Irlanda, também, se agravaram hoje no mercado dos CDS. O valor para o caso irlandês subiu 9% em relação a sexta-feira alcançando 177,68 pb e no caso da Grécia o preço dos CDS voltou a subir acima dos 400 pb, fixando-se hoje à noite nos 425,63 pb, com um risco de incumprimento de dívida de mais de 30%.

Bolsas grega e americana no vermelho

Esta situação teve um colateral na bolsa grega que voltou a cair hoje mais de 4,5%, prosseguindo no crash já verificado na sexta-feira, em que o índice bolsista FTSE/ASE20 quebrara mais de 4%. A bolsa grega destoou hoje no conjunto das bolsas europeias que registaram subidas, incluindo a lisboeta (PSI 20 subiu 1,29%), a dublinense (subiu menos de 1%) e a madrilena (Ibex35 subiu mais de 1%).

Nos Estados Unidos, os efeitos do ataque à Zona Euro, a pretexto dos riscos com a dívida soberana de alguns países europeus pintados pelos media americanos como “uma bomba ao retardador”, conjugados com o aviso da Moody’s da semana passada de que o país mais poderoso do mundo corria o risco de “em algum momento” ver revista a sua notação de rating de triplo A, provocaram, hoje, de novo, a recaída do Dow Jones para abaixo dos 10.000 pontos (uma quebra de mais de 1%).

A meio da semana passada, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy resolveram apertar as mãos em torno de uma “Agenda 2020” que inclui mais de 80 projectos entre os dois países vizinhos.

Na área económica, foi logo dado destaque, entre eles, a cinco projectos de política industrial comum: um office franco-alemão para as energias renováveis, um projecto-piloto de veículo eléctrico de colaboração entre Estrasburgo e Estugarda, o lançamento de um satélite franco-alemão de detecção de emissões de gás com efeito de estufa, o trabalho conjunto na área de um futuro foguetão espacial europeu e a coordenação na indústria de defesa.

Mas, para além desta convicção de que a Europa deve ter “uma base industrial sólida” (como se refere no comunicado oficial do encontro), e não só viver de rendas financeiras, de serviços (por mais importantes que sejam, como os financeiros, os logísticos, ou o turismo) e de software, a França e a Alemanha dão as mãos, de novo, para consolidar uma nova entente geopolítica, de cooperação estratégica com impacto global.

Primeiro, dentro de portas, recolocando o eixo franco-alemão na direcção estratégica da Zona Euro e da União Europeia face à confusão que reina no seu topo institucional fragmentado. Basta recordar o que aconteceu na semana finda: a Comissão Europeia dá um sinal de “sim, mas” à Grécia em apuros e, logo a seguir, um comissário, Joaquín Almunia, vem, por sua alta recriação, estragar o repasto e provocar um crash na Europa (e particularmente nas bolsas de Madrid, Lisboa e Atenas numa verdadeira quinta-feira negra) e o aumento do nervosismo nos mercados de seguros da dívida soberana (hoje conhecidos pelo popular acrónimo inglês CDS – para credit default swaps).

Plano de consolidação orçamental e de regulação

Esta 12ª reunião conjunta de conselhos de ministros, desta vez no Eliseu, em Paris, decidiu que o eixo apresentará propostas comuns na área económica e financeira já na próxima cimeira informal da União Europeia a 11 de Fevereiro – na próxima quinta-feira – em Bruxelas.

Os dois países pretendem que a consolidação orçamental nos países membros se faça até 2013 em torno da meta de um défice inferior a 3% do PIB no quadro do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) e de um estado de equilíbrio orçamental até 2015. Com a resposta à Grande Recessão, a França atingiu, no ano passado, os 8,3% e a Alemanha subiu para os 3,4% (um pouco acima do tal limite, o que para os alemães é uma desonra).

A Alemanha gastou, em termos acumulados ao longo do pânico financeiro e da recessão que se seguiu, 5,1% do seu PIB (em valores de 2008) a salvar o sistema financeiro e 2,5% do PIB em programas de estímulos; no caso da França aplicou muito menos em termos absolutos e relativos: 1,4% do PIB a deitar água no risco sistémico e 1,2% em estímulos, segundo dados recolhidos pela Grail Research até Setembro de 2009, uma firma de investigação estratégica, sedeada em Cambridge, Boston. No conjunto os dois países gastaram em bailout e estímulos mais de 350 mil milhões (biliões na designação anglo-saxónica) de euros, apenas 2,7% do esforço mundial que totalizou 13 biliões (triliões na designação anglo-saxónica), em que os EUA gastaram 5,9 biliões e a China 2 biliões.

Apesar da força política do PEC, um grupo de notáveis na Alemanha, membros do Painel de Conselheiros Económicos do governo federal, já propôs um Pacto europeu de consolidação orçamental em que a saída das políticas anticrise seja cautelosa e rigorosa, e assumida em conjunto por todos os estados-membros.

O eixo franco-alemão trabalhará coordenadamente nas questões quentes do problema sistémico e de algumas das lições da actual Grande Recessão: regulação do mercado de derivados e dos fundos especulativos; sobre as instituições financeiras sistémicas, as jurisdições não cooperativas (eufemismo para offshore), as normas em matéria de exigências de fundos próprios e de liquidez do sistema financeiro e as agências de compensação e de notação (as famosas agências de rating). Preparará, também, em conjunto as negociações do próximo quadro financeiro plurianual europeu.

O já referido painel alemão de conselheiros avançou com uma ideia que agrada, também, a Sarkozy: a criação de um organismo de observação sobre os mercados de divisas, considerados pelos alemães “num estado de anarquia”, assegurando um sistema tripolar, entre o euro, o dólar e o renmimbi (a moeda chinesa), curiosamente omitindo a libra.

Resposta a uma humilhação

Depois, o casalinho em lua-de-mel franco-alemão olha para fora do continente: “Num mundo em que se impõem novos actores globais, estamos convencidos que um eixo franco-alemão o mais estreito possível é indispensável para os nossos dois países e para a Europa”, diz o comunicado oficial.

Todos estão lembrados da humilhação recente da Europa na Conferência de Copenhaga sobre alterações climáticas, em que uma mesa adhoc de cinco (EUA, China, Brasil, Índia e África do Sul) deixou os europeus a falar sozinhos pelos corredores da cimeira como baratas tontas. Os passos estratégicos a dar não vêm explícitos no comunicado oficial franco-alemão.

Entre as medidas explícitas, a França apoia a aspiração da Alemanha a ter um lugar de membro permanente no Conselho de Segurança da ONU e os dois países apresentarão, logo que possível, uma candidatura à presidência conjunta da Organização de Segurança e Cooperação Europeia.

Interrogações finais: Como reagirá o Reino Unido a este renascimento do eixo franco-alemão? Voltará, de novo, para os braços do Tio Sam? Conseguirá o eixo cativar o shatterbelt europeu, dos nórdicos, ao leste (Polónia, sobretudo) e à Península Ibérica?

A política europeia voltou a ficar animada. Os jogos de poder regressaram, depois, de um interregno com a Grande Recessão e as peripécias do Tratado de Lisboa.

Uma vaga de pânico financeiro alastrou hoje (4 Fevereiro) pelas bolsas europeias e, ao final da tarde, pelas bolsas de Wall Street e da Times Square (onde fica o Nasdaq, a bolsa das empresas tecnológicas). Os analistas começaram a sentir um cheiro a novo crash bolsista, com quedas superiores a 2,5% em todo o espaço europeu e americano, exceptuando a Ásia.

As situações mais graves na Europa ocorreram em Espanha, com o índice Ibex a cair estrondosamente quase 6% (a maior queda do dia à escala mundial), a que se seguiram as quedas aparatosas no índice PSI 20 português (quase 5%), na Hungria (4,57%) e na Polónia (4,11%). Nas Américas, a maior quebra ocorreu no índice Bovespa brasileiro (4,73%).

A nível de grandes quedas em entidades cotadas, os analistas salientam as correcções fortíssimas em grandes bancos originários da Península Ibérica, com a cotação do Santander (um dos maiores bancos do mundo) a cair 9,4%, do BBVA a quebrar 7,5%, do BCP a descer, também, 7, 5% e do BES a cair 5%.

Um cocktail de causas

Os analistas inclinam-se para “um cocktail de muitas coisas” a influenciar esta situação, como expressou à Bloomberg o analista suíço Manfred Hofer.

Nesse cocktail incluem-se factos económicos que se conjugaram, nesta semana, à escala mundial: 1) a China declarou claramente ir “arrefecer” a expansão doméstica do crédito; 2) a Moody’s avisou que “a dado passo” poderá ver-se obrigada a despromover os próprios Estados Unidos da sua notação de triplo A (a mais alta); 3) a mesma agência de rating alertou para o facto de 995 grande empresas defrontarem nos próximos cinco anos a necessidade de refinanciarem 574 mil milhões de euros de dívidas (quase 3,5 vezes o PIB português); e 4) o mercado dos credit default swaps (conhecido pelo já popular acrónimo de CDS, um veículo financeiro para segurar o risco da dívida) esteve ao rubro, com disparos nos preços desses seguros para a Islândia (6º país de maior risco à escala mundial), Grécia (7º país de maior risco), Portugal, Itália e Polónia.

As situações mais graves ocorreram hoje com o aumento no caso português e grego, que fixaram novos máximos históricos. O preço dos CDS relativos a Portugal subiu para 229,56 pontos base (pb), o que equivale a um aumento de quase 150% em relação há um mês atrás, e no caso grego para os 426,38 pb. No caso da Itália e Polónia, o preço galgou o patamar dos 150 pb.

Os analistas interrogam-se agora, se este crash vai ter continuidade e se desaguará numa recaída da recessão mundial. O que se passou na cena europeia irá fazer ricochete?

O “clube Med”, designação mais mediterrânica e simpática para o que outros chamam de PIGS (o acrónimo para Portugal, Itália, Grécia e Espanha, que, em inglês, significaria porcos, mas não os da quinta de Orwell), voltou a dar sinal de si. Ontem juntou-se para ocupar os lugares cimeiros dos aumentos dos preços dos credit default swaps sobre a dívida soberana, segundo os dados públicos divulgados pelo Markit.

A Grécia, depois de uma descida na segunda-feira do seu máximo nos 404 pontos base (alcançado na semana passada, no auge do ataque especulador por parte de hedge funds), voltou a subir, ontem, para 386,05 pontos base (pb), apesar do “sim, mas” da Comissão Europeia ao seu plano de consolidação orçamental, que foi colocado sob observação.

Portugal, depois de uma descida ligeira, voltou ontem a subir para o seu máximo histórico de 166 pb, alcançado, também, na semana passada. A Espanha subiu, também, para os 133 pb e a Itália, que tinha estado arredada destas andanças durante uns tempos, alcançou os 121,72 pb.

Cada 100 pontos base equivalem a um diferencial de 1% em relação ao preço dos CDS sobre a dívida alemã que se situa nos 36 pontos base. Ou dito de outro modo, se um investidor pretender segurar a dívida soberana grega num montante de 10 milhões de euros, contra o risco de bancarrota a cinco anos, terá de pagar mais 385 mil euros por ano; no caso português terá de pagar mais de 160 mil euros; no espanhol mais de 130 mil; e no italiano mais de 120 mil – enquanto no caso alemão, apenas, 36 mil.

À frente do grupo europeu ocidental de países de risco está, naturalmente, a Islândia que se mantém distanciada do “clube Med”, com preços na ordem dos 650 pontos base. No leste europeu, a situação continua a piorar relativamente à Ucrânia cujos preços dos CDS estão nos 879, 82 pb. À escala mundial, as situações sob observação mais graves são a Venezuela e a Argentina que se encontram próximo do patamar dos 1000 pontos.

A Comissão Europeia, amanhã (3 de Fevereiro), na sua apreciação do plano orçamental grego até 2013 deverá colocar em marcha um sistema de vigilância muito apertado da Grécia, um mecanismo excepcional que a União Europeia não utilizou até à data, segundo noticia hoje o jornal francês Le Monde.

O plano grego – apesar das dúvidas que tem suscitado por parte de analistas e responsáveis europeus – deverá ter o aval da Comissão. O mecanismo de observação obrigará o governo grego a apresentar um relatório em meados de Março e depois em meados de Maio, e seguidamente trimestralmente.

Os gregos vão durante as próximas semanas passar por uma escada de “portagens” sucessivas. Na próxima 6ª feira (5 de Fevereiro), em Bruxelas, os chefes de Estado e primeiros-ministros da União Europeia (UE) irão analisar discretamente a questão grega, à margem da cimeira informal consagrada aos assuntos económicos e climáticos. Depois, a 15 e 16 de Fevereiro, a reunião dos ministros das Finanças da UE deverá validar ou emendar as recomendações da Comissão sobre a Grécia.

A dívida soberana grega esteve sob ataque cerrado na semana passada (quando os preços dos credit default swaps – conhecidos pelo acrónimo CDS – relativos a essa dívida chegaram a mais de 400 pontos base, um máximo na Europa Ocidental, exceptuando o caso da Islândia que já atingiu mais de 670 pontos base) e o primeiro-ministro socialista helénico denunciou inclusive em Davos, no World Economic Forum, uma operação especulativa maciça de hedge funds em curso nessa semana, de que o Der Spiegel se fez eco.

Recorde-se que, na semana passada, os CDS relativos à dívida soberana portuguesa atingiram, também, um máximo histórico de 166 pontos base (pb). No começo desta semana, os CDS gregos já baixaram para 378,83 pb. A bolsa grega continua com alguma volatilidade.

O mercado dos fundos de pensões, nos últimos dez anos, cresceu mais em países como Brasil, Hong Kong, Austrália e África do Sul. Na Europa cresceu mais em França e na Holanda no mesmo período, segundo um estudo da Towers Watson que abrangeu os principais treze países envolvidos nesse sector. Estaremos a assistir a mais uma mudança geoeconómica?

O mercado dos fundos de pensões teve taxas de crescimento anual (compostas) de dois dígitos no Brasil (quase 19%), Hong Kong (14%), Austrália (cerca de 14%) e África do Sul (10%) nos últimos dez anos, segundo um estudo divulgado hoje pela Towers Watson, que abrangeu 13 países entre os desenvolvidos e os emergentes. A taxa média de crescimento anual, naquele período, foi, apenas, de uns magros 3,6% para o conjunto dos treze países analisados. Nessa década, no espaço da Zona Euro, a França (9,8%) e a Holanda (9,5%) juntaram-se a esse clube de países com maiores crescimentos na década.

O estudo foi interpretado por diversos analistas como dando indicações de quais os mercados de fundos de pensões do futuro, com destaque para os três grandes países do G20 situados a Sul (Brasil, África do Sul e Austrália).

Crescimentos surpreendentes

Nos últimos doze meses, reportados a Dezembro de 2009, a taxa de crescimento anual, em dólares, foi absolutamente surpreendente em casos como Brasil (108,3%), África do Sul (cerca de 43%) e Austrália (40,3%), enquanto à escala mundial o crescimento anual foi de 15%. No caso da Europa, o crescimento mais assinalável foi o do Reino Unido, com 25% de crescimento entre Dezembro de 2008 e Dezembro de 2009. Em moeda local, os maiores crescimentos no último ano incluíram o Brasil (54,3%), Hong Kong (23,3%), Holanda (14,2%) e França (13,8%).

Trata-se de uma recuperação a sublinhar, depois de uma contracção mundial deste mercado superior a 21% entre Dezembro de 2007 e Dezembro de 2008, durante o período de pânico financeiro da actual Grande Recessão.

Os analistas referem que esses crescimentos seriam sintomas de alguma “emigração” deste mercado para o Hemisfério Sul, dado o peso da Austrália (5º mundial em activos de fundos de pensões) e a subida de países como o Brasil (quase sextuplicou; 9ª posição actualmente), África do Sul (quase triplicou; 10ª posição) e Hong Kong (mais do que triplicou; na última posição do grupo de 13 analisados).

O grupo líder em activos de fundos de pensões continua a ser formado pelos EUA (mais de 13 biliões de dólares de activos em fundos; 13 triliões na designação anglo-saxónica; ou seja 57% dos fundos de pensões existentes neste grupo de 13), Japão (3,2 biliões), Reino Unido (1,8 biliões), Canadá (1,2 biliões), Austrália (996 mil milhões) e Holanda (990 mil milhões). Dentro deste clube selecto, o Japão foi o país que apresentou a taxa de crescimento anual média mais baixa em dez anos inferior a 2% e os Estados Unidos e o Reino Unido cresceram menos de 3%. Por essa razão, o peso dos fundos de pensões destes três países líderes baixou no total dos 13 países.

Na Europa, a Holanda é o maior mercado, ocupando a 6ª posição mundial neste estudo, seguindo da Suíça e da Alemanha. O mercado francês ocupa a 11ª posição neste grupo de 13, mas foi o com maior crescimento anual nos últimos dez anos (multiplicou por 2,5).

Os mais “viciados”

A Towers Watson analisa, também, o peso destes activos em fundos de pensão em relação ao PIB de cada país na sua moeda local. Os países mais “viciados” nestes fundos são a Holanda (120% do PIB), Suíça (113%), Austrália (93%), Estados Unidos (93%), Canadá (84%) e Reino Unido (80%). Os que mostraram maior crescimento desta percentagem no PIB entre 1999 e 2009 foram Hong Kong (mais 27 pontos percentuais), Austrália (mais 26 pp), Holanda (mais 17 pp) e Brasil (mais 11 pp). Os que emagreceram no PIB ocorreram nos casos dos Estados Unidos (quebra de 16 pontos percentuais), Canadá (12 pp) e Reino Unido (12 pp).

Os casos de crescimento de peso no PIB são ainda mais assinaláveis se tivermos em conta que, no mesmo período, o peso dos fundos de pensões no PIB mundial em dólares diminuiu 6 pontos percentuais, situando-se hoje nos 70%. Países como a França e a Alemanha têm um peso dos fundos de pensões no PIB muito baixo, de 6% e 12% respectivamente.

O estudo revela, ainda, que há uma discrepância assinalável no perfil dos fundos de pensões entre duas realidades bem distintas: no Japão e no Canadá são detidos em 70% e 62% respectivamente por entidades públicas, e nos casos do Reino Unido, Austrália, Holanda, Suíça e Estados Unidos são detidos por privados em mais de 70%.

A Towers Watson disponibiliza no seu sítio na web uma ligação para o estudo que abrange outros aspectos não abordados neste artigo.

Não é esperado em 2010 um disparo similar ao que ocorreu em 2008, quando o barril de petróleo atingiu o seu máximo nominal histórico. Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), o preço médio do barril de crude deverá situar-se abaixo dos 80 dólares (mais precisamente 76 dólares), segundo a actualização realizada na terça-feira às principais projecções macroeconómicas do World Economic Outlook.

Ainda que signifique um aumento de 22,6% em relação ao preço médio de 2009 (que se situou nos 62 dólares), alguma volatilidade esperada para o ano em curso não deverá retirar o preço médio desta commodity estratégica do patamar dos 70-80 dólares, em que se tem movido este primeiro mês do novo ano. O FMI estima que o preço médio do barril do ouro negro continue a subir em 2011, ainda que moderadamente, para um patamar de 82 dólares, um acréscimo de 7,9% em relação a 2010.

A moderação do cenário de aumento do preço médio do crude deriva da cautela das projecções do FMI para o crescimento mundial, que é estimado crescer 3,9% em 2010, um pouco mais do que em 2008. A cautela sobre esta retoma mundial deriva do facto do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ser ainda muito moderado nos países desenvolvidos, onde não se espera que ultrapasse os 2,9%, com crescimentos mais baixos que a média no caso dos EUA (2,5%) e mesmo medíocre no caso da Zona Euro (1%). Além disso, há o efeito de eficiência energética que continua a actuar nestes países.

O actual crescimento da economia mundial está a ser alimentado, desde os anos 2000, pela dinâmica de crescimento dos países emergentes de médio rendimento, cujo crescimento médio anual se espera aproximar do que ocorreu em 2008, ou seja no patamar dos 6%. A China deverá crescer em 2010 na ordem dos 10%, quatro décimas mais do que em 2008 e 1,3 pontos percentuais mais do que em 2009.

Segundo as projecções do FMI, o efeito desta dinâmica dos emergentes não gerará, contudo, um novo choque petrolífero: “Esta pressão em alta [no preço das matérias-primas] espera-se que seja modesta, em virtude dos níveis de stock acima da média e de existir uma capacidade excedentária substancial em muitos sectores de commodities”.

Recorde-se que, apesar do aumento do preço do barril de crude entre 31/12/2008 e 31/12/2009 na ordem dos 85% para a variedade Brent (de referência na Europa) e 78% para o WTI norte-americano, o preço médio sofreu uma descida de 36% em relação ao efeito do choque petrolífero nos preços ocorrido durante meados de 2008, quando o preço médio subiu 36% em relação a 2007.

Ideia em destaque: “Entre países com o mesmo nível de rendimento per capita, os com melhor desempenho logístico conseguem um crescimento adicional: 1% no produto interno bruto e 2% no comércio internacional”.

Resumo: Segundo o Índice de Desempenho Logístico do Banco Mundial, Portugal caiu do 28º lugar em 2007 para o 34º em 2010. A despromoção do país deveu-se à perda de desempenho mais acentuada em três dos seis indicadores avaliados: oferta de preços competitivos para expedição internacional, frequência de cumprimento de prazos de entrega e possibilidade de controlo à distância do trajecto e entrega das cargas.

No campeonato mundial da logística, Portugal desceu na segunda divisão onde se encontra desde 2007. Uma queda de seis posições retirou o país dos lugares cimeiros do grupo com um desempenho que poderíamos classificar de “médio-alto” em logística, uma espécie de segunda divisão. Do 28º lugar em 2007 passou para 34º agora, segundo o The Logistics Performance Index (LPI) publicado, desde 2007, pelo departamento de Comércio Internacional do Banco Mundial, em Washington DC, em colaboração com a Escola de Negócios de Turku, na Finlândia, e que abrange 155 países.

A descida portuguesa foi compensada pela subida da China e da África do Sul para os lugares cimeiros deste escalão “médio-alto” em desempenho logístico que se situa entre 70% a 80% do nível da Alemanha, o líder mundial neste índice em 2010.

Descida em três indicadores

A despromoção do país dentro desta segunda divisão da logística mundial deveu-se à perda de desempenho mais acentuada em três dos seis indicadores avaliados pelo índice logístico do Banco Mundial desde 2007: oferta de preços competitivos para expedição internacional (onde caiu abruptamente do 33º lugar para o 59º), frequência de cumprimento de prazos de entrega (onde desceu da 21ª posição para a 40ª) e possibilidade de controlo à distância do trajecto e entrega das cargas (em que passou do 30º para o 39º lugar). Estes três indicadores são importantes em termos de confiança e previsibilidade do que, tecnicamente, em gestão, se designa por cadeia de fornecimentos, um elemento crítico no comércio internacional.

Apenas em um dos seis critérios do índice melhorou ligeiramente a posição, na qualidade e competência em logística. Em matéria de eficiência alfandegária e de qualidade de infra-estruturas piorou ligeiramente nos últimos dois anos, segundo o índice.

Alterações geoestratégicas

Num plano global, o índice agora publicado revelou mudanças importantes no grupo líder do índice, segundo o relatório “Connecting to Compete 2010 – Trade Logistics in the Global Economy”.

A Alemanha ultrapassou Singapura (que foi destronada do lugar supremo de rainha da logística) e a Holanda, que também se viu ultrapassada pelo vizinho nórdico, a Suécia. O caso de subida mais fulgurante nesta primeira divisão foi o do Luxemburgo que passou da 23ª posição para a 5ª, integrando agora a elite da logística. Também a Suíça e o Reino Unido subiram posições no grupo dos 10 melhores e a Bélgica e a Noruega entraram para esse clube.

Sublinhe-se que, no grupo dos 10 primeiros, o espaço europeu reforçou posições, face à descida ligeira do Japão (para 7º) e à saída de Hong Kong (passou a 13º) e do Canadá (desceu para 14º). Os Estados Unidos, a maior economia do mundo, baixou uma posição, estando agora no 15º lugar.

Os BRIC (acrónimo para Brasil, Rússia, Índia e China) revelam uma divisão em que são visíveis duas velocidades. A China subiu no grupo “médio-alto”, liderando-o (na 27ª posição), e o Brasil saltou 20 posições (passando ao 41º lugar), integrando, agora, esta segunda divisão onde se encontram o gigante asiático e Portugal. Pelo contrário, a Índia foi despromovida desta divisão, descendo da 39ª posição para a 47ª, e a Rússia continua acantonada numa posição fraca na terceira divisão, em 94ª lugar, apesar de ter subido cinco degraus entre 2007 e 2009.

Radiografia dos PIIGS

Uma radiografia dos PIIGS (acrónimo para Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha), agora, famosos na Zona Euro, pelas piores razões, revela contrastes bem marcantes entre três divisões: a Irlanda continua próxima do grupo dos 10 primeiros do índice (manteve a 11ª posição), a Itália conservou o seu 22º lugar e a Espanha subiu um degrau na primeira divisão, situando-se na 25ª posição, enquanto Portugal desceu na segunda divisão (para 34º lugar) e a Grécia foi despromovida para a terceira divisão (um trambolhão, uma queda de 26 degraus, situando-se, agora, na 54ª posição).

Efeito multiplicador

Refira-se, a concluir, que a importância da logística para o bom desempenho económico é um dos aspectos sublinhados pelo Banco Mundial ao publicar este índice. Segundo o relatório, “ a evidência do LPI de 2007 e 2010 aponta para o facto de que, entre países com o mesmo nível de rendimento per capita, os com melhor desempenho logístico conseguem um crescimento adicional: 1% no produto interno bruto e 2% no comércio internacional”.

Rankings

TOP 5 de 2010: Alemanha; Singapura; Suécia; Holanda e Luxemburgo
TOP 5 de 2007: Singapura, Holanda, Alemanha, Suécia e Áustria
TOP 5 do grupo “médio-alto” em 2010: China, África do Sul, Malásia, Polónia e Israel
TOP 5 do grupo “médio-alto” em 2007: Malásia, Portugal, Grécia, China e Tailândia
5 “Colegas” próximos de Portugal (34º) no Índice de 2010: Bahrein (32º), Líbano (33º), Tailândia (35º), Kuwait (36º) e Letónia (37º)

As principais bolsas da Europa e da Ásia fecharam ontem (28/01) no vermelho, exceptuando, no entanto, paradoxalmente, os “suspeitos do costume”, a Grécia e o Dubai. Já hoje as principais bolsas da Ásia voltaram a fechar no negativo.

Apesar da recondução ontem no Senado americano (por 70 contra 30 votos) de Ben Bernanke para a presidência da Reserva Federal e de alguns efeitos positivos imediatos do discurso sobre o Estado da Nação do presidente Obama na quarta-feira, os índices do Dow Jones caíram acima de 1% e no caso do Nasdaq, a bolsa das tecnológicas em Times Square, o trambolhão foi quase de 2%.

Fim da mini-bolha?

A EconomyWatch vaticinou que estes sinais de volatilidade nos três continentes serão o sintoma de que a “mini-bolha” que se vinha a desenvolver desde Março de 2009 estará a esvaziar-se e que um novo período de domínio do “urso”, de correcção bolsista, se iniciará durante este primeiro trimestre de 2009.

No entanto, no que respeita, especificamente, à situação na Europa, o primeiro-ministro socialista grego, Georges Papandreou, levantou, ontem, no World Economic Forum, em Davos, a suspeita de que estaria a haver um ataque à Zona Euro por parte de especuladores a partir da situação grega. Alvitrou, inclusive, que adversários políticos com “motivos ulteriores” estariam envolvidos na operação.

O chefe do executivo grego aludiu que um rumor foi espalhado nos mercados financeiros de que a Grécia sairia do euro e que se dirigiria directamente aos investidores chineses para recolher fundos sem passar pelo mercado. Este rumor destruiu, de imediato, o êxito que no dia anterior tinha havido na colocação de 20 mil milhões de euros de obrigações, uma operação que recebeu propostas de financiamento quatro vezes superiores a esse montante.

E deixou o recado que “a seguir à Grécia, estão Portugal e Espanha”. Portugal foi objecto de várias missivas das agências de rating nestes últimos dias e a Espanha foi visada pelo economista americano Nouriel Roubini – conhecido na gíria por Dr.Doom – que avisou que, em caso de problemas com Espanha (o país da Zona Euro que o FMI prevê que continuará em recessão ainda em 2010), seria “um desastre”, mais grave do que a actual tragédia grega.
Papandreou recebeu, de imediato, em Davos, o apoio de Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu, e de José Luis Zapatero, o primeiro-ministro espanhol que preside, actualmente, à União Europeia.

Portugal e Grécia sob suspeita

Pelo segundo dia consecutivo, a situação de (des)confiança dos mercados financeiros em relação às condições de cumprimento das responsabilidades da dívida soberana portuguesa e grega agravou-se.

Os credit default swaps (CDS) relativos a estes dois países voltaram a disparar, com o caso português a atingir novo recorde, saltando 11% de um dia para o outro, situando-se, agora, nos 166,2 pontos base (pb), e o caso grego a galgar o patamar dos 400 pb.

Nos últimos 28 dias, a situação portuguesa agravou-se em 83,34%, o maior disparo na Europa, e os preços dos CDS relativos à Grécia aumentaram 43%.

No caso português há, ainda, a assinalar que três empresas portuguesas – EDP Energias de Portugal, Portugal Telecom International BV e Portugal Telecom SGPS – viram o preço dos CDS relativos à sua dívida subir mais de 50% nos últimos 28 dias, tendo ultrapassado a barreira dos 100 pontos base.

A situação grega foi ontem objecto de particular alarme. A taxa de juros a 10 anos das obrigações relativas à dívida pública grega voou para os 7,147%, um recorde na Zona Euro, com um diferencial de quase 4 pontos percentuais em relação à taxa de juros de referência alemã para este tipo de obrigações (que está nos 3,199%). Desde Novembro de 2009, a taxa grega subiu dois pontos percentuais. No caso português, face ao novo recorde do preço dos CDS, a taxa de juro da dívida portuguesa a 10 anos deverá estar próxima dos 5%.

Mecanismo europeu em preparação?

O primeiro-ministro grego falou de um ensejo muito íntimo em Davos, “uma ideia pessoal”, frisou, a de que pudesse existir “um mecanismo de socorro mútuo” dentro da União Europeia (UE) para acudir a situações extremas, uma espécie de euro-obrigações.

Refira-se que o novo Tratado de Lisboa, no seu artigo 122, prevê assistência financeira de emergência a um estado membro que “conheça dificuldades ou uma ameaça séria (…) em virtude de acontecimentos excepcionais escapando ao seu controlo”. A ideia de evitar que seja o Fundo Monetário Internacional a estender a passadeira de salvação a um membro aflito da UE estará a ganhar apoio em Bruxelas.

Aparentemente parecem existir duas “linhas” dentro da Zona Euro, uma que ficou clara, esta semana, uma vez mais, pela voz do ministro da Economia alemão, Rainer Bruderie, que garantiu que nunca haverá salvações a devedores relapsos em apuros, e outra que, segundo o jornal francês Le Monde, estaria já a ser preparada discretamente por peritos franceses e alemães. O jornal londrino The Telegraph recorda que a intransigência do ministro alemão faria muito mal ao próprio sistema financeiro desse país que estaria muito exposto à dívida grega (tal como está à espanhola e à portuguesa, acrescenta).

A Comissão Europeia deverá apreciar o plano grego de consolidação orçamental na próxima semana, um plano que prevê a contracção do défice público em quase 10 pontos percentuais do PIB até 2013 (no caso português será de mais de 5 pontos percentuais).

Um veredicto que será analisado à lupa pelos mercados financeiros internacionais, tanto mais que outros países da Zona Euro terão de fazer contracções brutais do défice, como a Irlanda e a Espanha em mais de 8 pontos percentuais. No caso da Inglaterra, que está fora da zona Euro, a contracção, para um défice similar ao recomendado aos seus parceiros comunitários com a moeda única, rondaria também os 8 pontos percentuais do PIB.

“Não desistimos, não desertamos!”, disse ontem Obama no seu primeiro discurso sobre o Estado da União perante o Congresso norte-americano.

A postura do presidente americano compreende-se face à situação politicamente complexa que o Partido Democrático atravessa ao fim de um ano de mandato de Obama na Casa Branca.

Um conjunto de “choques” tem afectado a sua estratégia inicial na “frente interna”, com uma subida de tom ultimamente. Os problemas domésticos acabariam, por isso, por ocupar 85% do tempo da intervenção.

Basta recordar, a derrota no estado de Massachusetts nas eleições especiais para o lugar para o Senado deixado vago pela morte de Ted Kennedy, o levantar de vozes críticas, no seu próprio campo, sobre a recondução de Ben Bernanke à frente da Reserva Federal no final deste mês (o Senado acabaria por confirmar dia 28/01 a continuação de Bernanke por 70 contra 30 votos), e as críticas de muitos independentes seus apoiantes de que teria sido um erro táctico grave ter dado prioridade, durante o ano passado, à reforma na área da saúde, em detrimento da questão do desemprego que afecta milhões na Main Street e de colocar ordem em Wall Street.

Uma carta de Keynes

Segundo alguns analistas, um erro de prioridades. Alguns recordam a carta aberta de Keynes ao presidente Roosevelt publicada no The New York Times, no final do ano de 1933, durante os primeiros nove meses dessa Administração, em que o economista inglês aconselhava a dar prioridade política à gestão da retoma e não a reformas de longo alcance. “O sucesso virá de conseguir uma retoma no tempo mais curto, o que fará crescer o prestígio da sua Administração, o que dará a força necessária para levar adiante tais reformas”, escrevia Keynes.

Inversão de prioridades

Obama parece, agora, guinar a vara neste segundo ano da sua Administração. “Tudo começa com a nossa economia”, afirmou. A questão do emprego tornou-se a prioridade face “à devastação que continua a estar presente” no tecido económico e social, apesar do “pior da tempestade já ter passado” e de se ter evitado uma recaída “numa segunda recessão”, disse o presidente.

As manchas de pré-colapso social em muitas regiões do país (“particularmente pequenas cidades e comunidades rurais”) e o empobrecimento brutal de largas franjas da classe média americana (cujas imagens passam em programas de grande audiência, como no Oprah Winfrey Show), levou Obama a avançar, agora, com um pacote de 30 mil milhões de dólares para um programa de emergência à criação de emprego dirigido ao small business, aos empreendedores inovadores e ao próprio desempregado que queira passar a ser boss de si mesmo.

Os fundos serão retirados do dinheiro “reembolsado por Wall Street”, pelos fat cats, que o presidente continua a fustigar, declarando mesmo que “todos nós detestámos salvar a banca, eu abominei isso [fortes aplausos], vocês detestaram-no!”. A câmara de televisão focou, nessa altura, o secretário do Tesouro, Tim Geithner, cuja cara estava literalmente lívida. Um novo ataque político que a alta finança no encontro de Davos do World Economic Forum já repudiou. O dinheiro será canalizado para bancos de proximidade que reabram o crédito aos negócios.

O presidente avançou, ainda, com um novo corte de impostos para criação de emprego ou aumento de salários por parte do small business. Juntou, ainda, “a eliminação de impostos sobre ganhos de capital derivados de investimento, e um incentivo fiscal a todos os negócios, grandes ou pequenos, que invistam em novos estabelecimentos e equipamento”.

Lançou, também, uma Iniciativa para a Exportação para os próximos cinco anos com o objectivo de “duplicar as exportações” nesse período.

Obama reafirmou, ainda, o horizonte de saída desta Grande Recessão, apontando o investimento nas energias “limpas”, nas infra-estruturas do futuro e na inovação como objectivos estratégicos de longo prazo. “Não há razão para a Europa ou a China terem os comboios mais rápidos e as fábricas que produzem produtos limpos”, afirmou. Apelou à travagem da deslocalização: “Está, na altura, finalmente, de eliminar os incentivos fiscais aos que exportam os nossos postos de trabalho e de dá-los às que criam empregos nos EUA”.

Consolidação orçamental

O presidente americano, no entanto, passou, num segundo andamento do seu discurso, ao tema da necessidade de cuidar do défice das contas públicas, propondo a criação de uma comissão bipartida no Senado destinada a vigiar a despesa pública.

O plano de consolidação orçamental de Obama deverá começar em 2011 com vista a um congelamento da despesa pública durante três anos, com excepção das áreas da saúde e da segurança social. Prometeu eliminar todas as cabimentações orçamentais que não tenham funcionado ou não possam ser suportadas. “Já identificámos 20 mil milhões para o próximo ano”, disse. Prometeu, também, terminar com os benefícios fiscais às petrolíferas, aos gestores de fundos de investimento e aos que ganhem mais de 250 mil dólares por ano.

Antes de passar à “frente externa” (a que só dedicou 9 minutos em uma hora de discurso), o presidente não poupou palavras para fustigar os lóbis nacionais e estrangeiros que capturam o Congresso e o aparelho do Estado, deplorando que o Supremo Tribunal americano tenha, na semana passada, aberto uma janela de oportunidade para “interesses especiais” financiarem sem limites as campanhas eleitorais americanas.

Foi uma quarta-feira particularmente crítica na Europa. A maioria das bolsas europeias esteve no vermelho com destaque para a continuação de um míni-crash na Grécia. O mercado de seguros sobre a dívida soberana disparou, de novo, com aumentos superiores a 10% dos preços dos CDS da Grécia, Espanha, Portugal e Itália.

A situação grega agravou-se ontem (27/01). Há dois dias que a bolsa grega vê os seus índices no vermelho com quebras típicas de mini-crash. Ontem, o índice grego FTSE/ASE caiu 4,68%, depois de ter quebrado 2,3% na terça-feira. O vermelho estendeu-se, ontem, à maioria das bolsas europeias, com destaque para as quedas do Ibex 35 espanhol (2,69%) e da bolsa irlandesa (2,17%).

A situação mais grave ocorreu, no entanto, no preço dos credit default swaps (CDS) sobre a dívida soberana dos famosos quatro PIGS (acrónimo em inglês para Portugal, Itália, Grécia e Espanha), que disparou, segundo dados do Markit. Em 28 dias, os preços dos CDS dos quatro países subiram para máximos, com o caso português a ganhar a liderança em termos da maior subida nesse período: 64,75%. A maior subida diária pertenceu ontem à Grécia (18,21%).

Os preços dos CDS desses quatro países estão, agora, em 378 pontos base (pb) no caso grego, 150 pb no caso português, 128 pb no caso de Espanha e 116 pb no caso de Itália. Cada 100 pontos base significa um ponto percentual acima da referência alemã.O preço dos CDS relativos à dívida soberana portuguesa haviam descido na terça-feira 9%, situando-se nos 129 pontos base, mas, ontem, a situação inverteu-se no quadro global de agravamento da avaliação dos PIGS.

A projecção do Fundo Monetário Internacional sobre o comportamento económico esperado para a Zona Euro em 2010 é muito preocupante. O Produto Interno Bruto (PIB) da zona da moeda única não deverá crescer mais de 1%, com uma continuação de recessão em Espanha (cujo PIB deverá cair ainda 0,6%). O panorama geral é de crescimentos abaixo ou igual a 1,5% nos países-chave da União Europeia (1,5% na Alemanha, 1,4% na França, 1% na Itália, 1,3% na Itália). No caso português, a proposta de Orçamento de Estado aponta para um crescimento de 0,7%.

Também, na Ásia, os índices de algumas bolsas importantes continuaram ontem no negativo, como o CSI 300 chinês (queda de 1,36%) e o BSE Sensex 30 da Índia (queda de 2,92%), depois de um dia negro generalizado na terça-feira.

O Dow Jones e o Nasdaq subiram ontem ligeiramente fruto do impacto imediato, positivo, do discurso sobre a União proferido pelo presidente Obama no Congresso norte-americano.

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